Saudáveis dores de cabeça

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Crédito dos livros: Taschen e autores dos mesmos

Depois de um sábado a ben-u-ron’s e a gerir uma dor de cabeça daquelas que não deixa saudades, eis que o dia vai acabando e, felizmente, vai levando consigo esta malfadada maleita. Começa agora uma dor de cabeça muito mais saudável, e que se traduz na pergunta “em qual pegar primeiro?”.  Apetece-me pegar nos dois de forma simultânea, mas infelizmente, é preciso escolher. Quem disse que a vida é simples? E quem me manda ir sempre ver as prateleiras da Taschen?

Desde o seu lançamento já neste ano de centenário que “Bauhaus Mödels”, de Patrick Rössler, era já um desejo. Rapidamente se tornou um dos livros de referência sobre a temática da presença feminina na Bauhaus, e de como as mulheres que a frequentaram ajudaram a construir este ideal modernista, em virtude de ser o produto mais recente da constante investigação feita nos arquivos da escola. Ficamos assim com mais uma justificada referência à presença, ao carácter e à obra de mulheres como Marianne Brandt, Gertrude Arndt, Lucia Moholy entre muitas outras, que ousaram seguir o seu próprio caminho artístico de uma forma moderna e progressista, em tempos conturbados da história alemã, marcados pela forte crise e pelo advento do nazismo. São histórias de liberdade e coragem, que ainda hoje nos ensinam algo.

“Bauhaus”, de Magdalena Droste, foi publicado pela primeira vez em 1990, e é uma das publicações de referência em termos de história da Bauhaus, com a autora a ser uma das mais respeitadas vozes sobre o tema, fruto duma profunda dedicação ao estudo da escola em todas as suas facetas, parte dele levado a cabo nos Arquivos Bauhaus como académica assistente. Nesta nova edição, contamos com 250 novas imagens, que tornam o livro maior, mas também mais rico, relativamente a uma edição mais antiga que pude brevemente consultar há algum tempo.

Entretanto, vai continuando a saudável dor de cabeça.

Crédito das publicações na imagem: Taschen

Ao sabor do vento

Tenho andado com esta música na boca e no coração…acho-a lindíssima, e traz-me uma enorme paz, talvez porque está em completa harmonia com aquela que cada vez mais é a minha caminhada.

Crédito da música: Donovan

Omnia in micro – 12

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Crédito: Desconhecido. Solicito Informação.

Habituou-se cedo a sentir a noite como um trilho de silêncio por entre o som labiríntico dos dias.  E igualmente cedo, compreendeu que não adiantava desafiar esses sons falando ainda mais alto…apenas se emaranhava numa confusão desafinada de tons distónicos, perdendo o seu caminho… de facto, não era o som que lhe dava um sentido, mas sim a forma como ele se desvanecia no seu sentir.

O cuidar

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Crédito da imagem: José Camarinha

Há algumas semanas atrás fui à Figueira da Foz ouvir a Carla Neves falar sobre Cuidadores Informais. Estava, lembro-me, uma noite bonita, amena, convidativa a ouvir e conhecer um pouco mais sobre esta causa que também me desperta memórias pessoais de tempos idos. São memórias por vezes guardadas em nós mas que, na vertigem dos tempos modernos, e apesar de muitas vezes essa interiorização ser uma auto-defesa, devem dar lugar a abertura do nosso coração a uma visão mais social destas situações, aberta, solidária e cidadã, num tempo em que cada vez mais se fazem sentir desafios sociais e geracionais que a todos nos afetam, de forma mais ou menos direta, traduzindo-se em mudanças fundamentais nos paradigmas de relacionamento e vivência dos núcleos familiares e da própria comunidade.

A Carla é uma de 800.000 Cuidadores Informais existentes em Portugal. A voz cansada, mas decidida, e a humildade do discurso trazem consigo a alma de pais, mães, irmãos, irmãs, primos, primas, tios, tias e por vezes amigos, que se dedicam a cuidar de quem tantas vezes deles cuidou, num verdadeiro ciclo de Amor que se traduz no desejo de cuidar por cuidar, evitando fenómenos de institucionalização que muitas vezes são mais nocivos que positivos. Pessoas que abdicam de toda uma vida pessoal, social, profissional em prol desta causa e que naquela noite, pela voz de uma delas, se abriram a nós, contando um pouco das suas vivências…das noites sem dormir, dos dias inteiros de prestação de cuidados de saúde, da constante monitorização de segurança dos que são cuidados, da exaustão, da falta de uma vida social (e por vezes familiar), dos parcos apoios do Estado…uma viagem por uma contextualização geral, mas também por casos concretos, também vindos da assistência, e que me impressionaram profundamente…por muito que cada vez mais os media disponibilizem tempo a esta causa, os relatos em primeira mão trazem-nos essa energia, que mexe connosco e nos desassossega de uma forma saudável, no contacto com realidades que a evolução social por vezes nos fez esquecer.

Falou-se igualmente de apoios. De um Estatuto do Cuidador Informal que nasceu a partir do nada, pela luta de todos, e que todos esperamos ser o início de uma alteração profunda na visão social desta situação, orientando estas pessoas ao acesso a mecanismos que permitam não apenas um aumento substancial dos subsídios atribuídos (presentemente algumas pessoas sobrevivem com valores que não chegam aos 200 euros mensais), mas igualmente à obtenção de pensões de reforma, entre outras situações que vão desde apoios ao descanso do Cuidador, até mecanismos de licenças em ambiente laboral. Falou-se no trabalho fantástico que vai sendo realizado ao nível local, não apenas por câmaras e freguesias que decidiram elas próprias avançar com iniciativas que podem proporcionar bons modelos para a evolução do Estatuto do Cuidador, mas igualmente pelos centros de saúde, que aliam as valências técnicas ao conhecimento das situações concretas, e à humanidade natural que naturalmente deve nortear os prestadores.

E, falou-se de nós. De cada um de nós…eu…tu que lês este artigo. De como cada um pode ajudar um Cuidador,  no seu dia a dia. Vivemos numa sociedade onde é tão glorificada a visibilidade dos resultados conseguidos, que o simples resultado em si, a pequena semente de algo, é quase sempre ignorada…ajudar numa tarefa, ir ao supermercado, consertar algo que se estragou e que é essencial para aquele Cuidador ou até simplesmente estar perto, e deixar fluir o sentimento de ajudar…tudo o que é grande começa no todo que é pequeno…nas pequenas ações que se podem propagar pelos enormes círculos de amizade e solidariedade que rodeiam os cerca de 800.000 cuidadores, pode estar o início de algo que todos temos de assumir como um desígnio comum para o futuro de todos.

 

 

Constatação

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Crédito da imagem: Paulo Heleno

Isto não é um homem cansado após uma caminhada por Ílhavo, tentando descobrir um local para jantar após uma longa caminhada. Muito menos é um homem cansado, sentado após uma longa caminhada, a relaxar um pouco e a divertir-se muito com o seu telemóvel a tirar umas fotografias engraçadas. E ainda menos é um homem já a desejar umas merecidas férias deixando a mente viajar por entre a luz da praia que resplandece no mar, ao mesmo tempo que nos limpa a alma.

De onde tiraram essas ideias? Eu cá só vejo um par de sapatos e e pedaços de jeans. Mas ás vezes o cansaço ilude um pouco a vista 🙂