Omnia in micro – 7

“O homem que se busca raramente é o homem que se encontra…na intenção da busca reside a afirmação de um caminho, por entre os extremos de uma escolha. Mas o homem que caminha, nem se busca nem se encontra. Ele apenas desfruta. Não se consome no tempo que se esvai, pois é no tempo que liberta a sua jangada à deriva no rio. “

Lentamente pousou o caderno, fixando o olhar no horizonte…

“Se fores o que sentires” continuou “ousa libertar-te desse sentimento…desfruta a paz que sempre emerge de simplesmente esqueceres o que serás”

Escolher as nossas escolhas

Para iniciar a publicação de vídeos aqui no blog, escolhi uma Ted Talk que me impressionou de uma forma indelével. É um testemunho que nos faz refletir sobre o contexto atual em que vivemos, particularmente na forma como são abordados os abusos sobre as mulheres.

Não irei falar muito sobre ela…existe toda uma miríade de reações que podemos ter ao assistir a este testemunho, e todas elas temos direito…mas acho que essencialmente deve ser ouvida e sentida…uma mulher, e o seu violador, partilham em palco uma história verdadeiramente única.

Crédito do vídeo: TED

Porquê um mini-MBA em Gestão de Serviços

Já tinha referido há algum tempo que me tinha inscrito num mini-MBA de Gestão de Serviços. Nas vésperas do início desta caminhada, partilho aqui algumas das razões que me levam a retomar os meus estudos nesta área. Aliás, durante todo o curso tentarei colocar alguns posts, à luz da aprendizagem que vou fazendo. É uma boa forma de sistematizar ideias sobre o que vou aprendendo. Desde já quero deixar bem claro que as ideias expostas nestes artigos correspondem às minhas ideias pessoais sobre estes temas, não vinculadas à empresa que represento.

Depois de em 2011 (após o meu percurso académico na área da Gestão de Empresas, e empresarial numa pequena PME do setor da transformação de plásticos) ter tirado a minha PG sobre Lean Management, que já incluía um pequeno módulo de Serviços, comecei quase imediatamente a trabalhar no ramo da consultoria. Primeiro como júnior, na área da Business Intelligence, e depois como júnior e sénior na área dos ERP’s, cedo me apercebi de um setor com um forte ímpeto inovador, com as software houses a encurtar cada vez mais os seus ciclos internos de inovação, e a promover metodologias de implementação cada vez mais diversas e mais curtas junto dos clientes finais. Para as consultorias representantes, isto traduz-se na necessidade de criação e adaptação de processos dentro de frameworks sempre flexíveis, adaptáveis às tipologias de cliente encontradas. Por outro lado, a preponderância cada vez maior do conceito de Voice of Customer (VOC) faz com que esses frameworks e respetivos processos não apenas devam estar de alguma forma ligados às metodologias das software houses, mas, igualmente, devem integrar essa mesma voz do cliente em forma de feedback contínuo de inovação, algo que se deve propagar à própria estrutura e funcionamento internos, numa lógica integrada e dinâmica de PDCA, com tempos progressivamente curtos de intervenção estruturada nos processos. Esta é, na prática,  uma situação transversal… desde as pré-vendas ao serviço pós-venda, com as atividades comerciais por um lado, e de suporte por outro a exigirem processos cada vez mais sistematizados. Dentro desta ótica, ter a capacidade de medir qualitativamente e quantitativamente o processo ou as suas unidades estruturais é fundamental. Por fim, é fundamental o envolvimento de todo este ecossistema na dimensão humana da organização. A forma de recrutamento em RH, o estabelecimento da liderança e da gestão de acordo com a visão e missão da organização (por um lado) e estrutura organizacional por outro, é algo cada vez mais importante na organização moderna. Saber distribuir os líderes e os gestores nos lugares certos, é um enorme desafio.

E é por tudo isto que decidi fazer este mini-MBA. Depois de 5 anos de experiência como consultor funcional, nesta área de serviços, vou começando a assumir tarefas de mais alguma responsabilidade, nomeadamente na área do suporte a cliente. E assim, torna-se, mais que necessário, extraordinariamente motivante e desafiador  aprofundar de forma especializada o aprendido anteriormente, para que possa trazer um valor acrescentado à visão definida acima, em linha com o meu desempenho profissional.

O desafio está lançado. É tempo de começar.

Outono

Ao contrário da maioria das pessoas, não me sinto cair numa tristeza algo anunciada na transição para o outono. Se o verão normalmente significa calor, o desfrute dos dias de luminosidade intensa que nos abre ao azul do mar, banhando a nossa praia interior; o outono traz-nos uma palete de cores que nos alimenta a alma pelas longas caminhadas em que o vermelho e o amarelo sobressaem num céu mais ou menos azul, mas sempre enquadrando esta tão invulgar palete.  Se no verão desfruto da energia positiva que me rodeia, e que emerge de um extravasar de energia de um certo libertar interior, o outono traz-me, por contraponto de equilíbrio, o recolhimento e a contemplação introspetiva da natureza por entre finais de tarde envoltos em tons dourados, por vezes entre os meus livros, apreciando de forma mais tranquila locais que no verão são literalmente inacessíveis dado ao volume de pessoas que os visitam ou frequentam. É igualmente a altura de me perder um pouco na montanha, ou nas praias que, já vazias, continuam a chamar quem nelas sempre se renova…

Bem-vindo Outono. Obrigado pela tua companhia sempre amiga.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Censored Mapplethorpe

Não vale a pena fazer um grande esforço para suavizar palavras que caracterizem o que alegadamente aconteceu em Serralves, com a tão aguardada exposição de fotografia de Robert Mapplethorpe. Se existiu retirada de fotografias nos dias imediatamente anteriores ao evento, indo para além dos normais avisos face à natureza explícita da exposição, ou até de uma já muito questionável sala específica para algumas fotografias (apesar de, particularmente, desejar que essas fotografias pudessem ser vistas em espaço aberto, por todos, incluindo os mais jovens quando acompanhados dos pais), então, estamos perante um ato de censura.

Esta é uma situação que atinge uma dimensão mais ampla em virtude de estarmos a falar de Serralves, um espaço que desde o início se apresentou ao Porto e ao país como um foco de harmonia entre a arte exibida e as vivências culturais, muito vastas, que a globalidade do espaço oferecia. E isso seria importante num país em que a arte é frequentemente desvalorizada, satisfazendo muitas vezes apenas meras necessidades de afirmação social numa sociedade onde googlar conhecimento substituiu o pensar e viver conhecimento, com consequências nefastas nas dinâmicas não apenas de educação cultural formal, mas igualmente no estímulo não apenas dos jovens, mas da população em geral, para a apreciação da cultura como fruto do nosso próprio desenvolvimento interior, motor da nossa ação diária num mundo que cada vez mais se quer diferente, para o bem de todos. Depois da demissão de João Ribas do cargo que desempenhava, esperam-se esclarecimentos, e rápidos, da administração da Fundação de Serralves face a este caso. É preciso conhecer exatamente o que realmente aconteceu. O trabalho de Mapplethorpe toca pontos que na sociedade portuguesa não apenas ainda são tabu, como estão sempre reféns de um certo puritanismo baixo, escondido, mas infelizmente muito funcional, reagindo com incapacidade e receio à visão da arte como pólo de reflexão construtivo (e muitas vezes alternativo) de que o país necessita muito, em troco da manutenção de um status quo de ignorância sobre estas questões. Muitos artistas têm a experiência desse puritanismo quando tentam expor/apresentar as suas criações. Seria triste se viéssemos a comprovar que os motivos do que aconteceu apenas assentaram na necessidade de calar a voz das imagens de Mapplethorpe, que nos tocam em feridas abertas do nosso tecido social, resultando numa sociedade que ainda hoje esconde o que nunca soube admitir e abordar.

E aí, o estado português, que é fundador e um dos principais financiadores de Serralves, deve atuar.

Crédito da imagem: Robert Mapplethorpe Foundation