Censored Mapplethorpe

Não vale a pena fazer um grande esforço para suavizar palavras que caracterizem o que alegadamente aconteceu em Serralves, com a tão aguardada exposição de fotografia de Robert Mapplethorpe. Se existiu retirada de fotografias nos dias imediatamente anteriores ao evento, indo para além dos normais avisos face à natureza explícita da exposição, ou até de uma já muito questionável sala específica para algumas fotografias (apesar de, particularmente, desejar que essas fotografias pudessem ser vistas em espaço aberto, por todos, incluindo os mais jovens quando acompanhados dos pais), então, estamos perante um ato de censura.

Esta é uma situação que atinge uma dimensão mais ampla em virtude de estarmos a falar de Serralves, um espaço que desde o início se apresentou ao Porto e ao país como um foco de harmonia entre a arte exibida e as vivências culturais, muito vastas, que a globalidade do espaço oferecia. E isso seria importante num país em que a arte é frequentemente desvalorizada, satisfazendo muitas vezes apenas meras necessidades de afirmação social numa sociedade onde googlar conhecimento substituiu o pensar e viver conhecimento, com consequências nefastas nas dinâmicas não apenas de educação cultural formal, mas igualmente no estímulo não apenas dos jovens, mas da população em geral, para a apreciação da cultura como fruto do nosso próprio desenvolvimento interior, motor da nossa ação diária num mundo que cada vez mais se quer diferente, para o bem de todos. Depois da demissão de João Ribas do cargo que desempenhava, esperam-se esclarecimentos, e rápidos, da administração da Fundação de Serralves face a este caso. É preciso conhecer exatamente o que realmente aconteceu. O trabalho de Mapplethorpe toca pontos que na sociedade portuguesa não apenas ainda são tabu, como estão sempre reféns de um certo puritanismo baixo, escondido, mas infelizmente muito funcional, reagindo com incapacidade e receio à visão da arte como pólo de reflexão construtivo (e muitas vezes alternativo) de que o país necessita muito, em troco da manutenção de um status quo de ignorância sobre estas questões. Muitos artistas têm a experiência desse puritanismo quando tentam expor/apresentar as suas criações. Seria triste se viéssemos a comprovar que os motivos do que aconteceu apenas assentaram na necessidade de calar a voz das imagens de Mapplethorpe, que nos tocam em feridas abertas do nosso tecido social, resultando numa sociedade que ainda hoje esconde o que nunca soube admitir e abordar.

E aí, o estado português, que é fundador e um dos principais financiadores de Serralves, deve atuar.

Crédito da imagem: Robert Mapplethorpe Foundation

Depois do destralhe…

Depois de duas caixas de plástico bastante grandes e vários sacos de plástico, o novo ambiente vai começando a ganhar forma…com várias ideias, vários sentires…um caminhar, por entre muitos trilhos que em mim habitam.

Se fores o que sentires, sentirás o que serás.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Porto Covo intimista

O post número 100 do blog não poderia ser melhor, produto de uma viagem idealizada antes de ontem, e realizada no dia de ontem. Existe um feeling especial nas ideias que simplesmente surgem e se executam “na hora”…sejam horizontes que se revelam, ou desafios que ousamos ultrapassar, a alma suspira de alívio, voltando a respirar pela mera quebra das rotinas do dia. Decidi rumar a sul, passando pela Comporta (que não conhecia) e continuar até um lugar onde fui muito feliz, na energia das férias de adolescência, fosse qual fosse a forma como se expressava, da diversão imensa, até ao descobrir da essência do meu Ser.

Independentemente do ângulo em que aborde esse tempo, foi um período intenso, do qual guardo muito em mim, estruturado na forma como me tornei homem. Por isso chegar a Porto Covo foi bom. Foi mesmo muito bom. Tinha algum receio que o urbanismo desenfreado de que ouvia alguns falar tivesse consequências bem mais nefastas do que o que vi. O núcleo central da povoação está na mesma, não tendo visto construção em altura no seu interior, ou na sua vizinhança  imediata, num conjunto que me pareceu harmonioso, à luz de um dia muito bonito e de mar imensamente azul,  convidando a ser desfrutado. E por isso fui para a Praia Grande aproveitar bem o sol matinal que aqui a zona centro ainda não vai permitindo (as manhãs marítimas são sempre muito enevoadas). Não sendo saudosista, confesso que no tempo que ali passei e caminhei, desde o porto de pesca ao parque de campismo mais antigo na entrada da povoação (existe um mais recente na Praia Grande), passando pelo sentir do sol na praia, as memórias surgiram naturalmente, em alguns casos fazendo-me sorrir e, em todos, fazendo-me pensar, encaixando-se na reflexão mais vasta que vou fazendo sobre a minha caminhada…o passado de um tempo mais simples não apenas não desaparece, como faz o presente representar-se perante nós numa perspetiva mais vasta…essa simplicidade é também parte de uma forma mais liberta de ver a vida que não se deve perder na nossa caminhada, mas reforçar-se com a aprendizagem obtida, mantendo a felicidade como objetivo principal da mesma, para lá do deambular num percurso circular de rotinas…

Fui para Vila Nova de Milfontes um pouco mais vivo, um pouco mais eu e um pouco mais em paz, deixando-me boiar num mar sem ondas, sobre o mesmo sol que me recebeu em Porto Covo, deixando o tempo simplesmente passar. À minha espera ainda tinha a viagem de regresso a Leiria, também para ser desfrutada como todas as viagens, em todos os tempos. Mas agora o presente estava ali, no meio de águas calmas e do silêncio que envolvia todo aquele cenário…tempo abandonado em seu tempo, abrindo as portas da perceção ao que na busca de mim encontrei durante o dia retirei durante o dia.

Tudo tem o seu tempo…não se adianta nem atrasa a paz…apenas se encontra, vive-se e, caso assim seja a nossa escolha, integramos em nós.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Destralhar

Adotei carinhosamente este termo: “destralhar”. Li-o num site sobre minimalismo, e fiquei literalmente apaixonado pela fonética e pelo ímpeto que coloca na necessidade de por vezes redefinir o espaço em nossa volta, face ao que desejamos no nosso bem-estar, algo muito ligado também ao que designamos por limpeza interior, pela forma como na ausência do que sai, nascem os horizontes do que fica. Se o termo “tralha” tem força na dimensão da quantidade de coisas que nos cercam, o “destralhe” tem exatamente a força oposta. É um termo delicioso.

Todos os anos faço uma arrumação geral no meu espaço. Acredito que o que guardamos encerra igualmente em si a energia de momentos, positivos ou negativos, que se tornam parte do nosso sentir diário. É uma energia que, mesmo que positiva, nos desenquadra entre o tempo presente e o tempo desses objetos, prendendo-nos em lembranças e recordações que nos fazem por vezes não dar os passos que deveríamos. Sendo negativa, prende-nos a nós mesmos, na prisão do que eles significaram de negativo no nosso caminhar. Este ano para além do que normalmente costumo fazer, lancei-me aos livros. Mais de 60 livros saíram das minhas prateleiras. Alguns, já os possuo em versão eletrónica, enquanto outros apenas passaram o prazo de validade dentro de mim. Nos outros anos, libertar-me destes livros (e também de CD’s, um pouco pelos mesmos motivos), era para mim uma espécie de tabu…sempre sentia alguma intranquilidade quando pensava em os retirar. Energia de lembranças, sorrisos, tristezas, envoltas numa aura intemporal. Mas este ano foi altura de partirem, uns para serem vendidos, outros (apenas por enquanto) arrumados.

E assim, posto tudo isto,  foi dia de abrir a janela, abrir as cortinas, deixar o sol entrar, respirar um novo ar trazido pela luz do verão que caminha para o seu final. Não posso deixar de sentir respirar diferente, de um ar mais leve. Quer queiramos quer não, o ato das limpezas são, mais do que uma ação, uma afirmação de mudança. de compromisso entre o que fomos e o que desejamos ser, naquilo que desejamos construir. E isso, é uma parte importante do caminho da felicidade que sempre buscamos em nós.

Crédito da imagem:O Minimalista

Podcast – fase 2

A tarde tem sido de testes ao novo equipamento para o podcast. Confesso que estava um pouco ansioso para experimentar o novo microfone, tido como “de entrada” neste mundo dos podcasts. Mas este Samson Q2C traz logo uma melhoria face ao meu anterior headset, também de entrada, da JBL, e que consiste numa ausência quase total de ruído de fundo ambiental, dada a característica cardióide deste microfone. Outra melhoria que observei até agora é a ausência de ruídos parasitas (principalmente “picos”) que eram muito frequentes no headset, uma vez que tinha de manter o microfone esticado a uma certa distância, e qualquer pequeno movimento se traduzia num “pico” ou numa distorção de arrastamento, só por o fio deslizar um pouco…retirá-los era um pesadelo. Com a estrutura imóvel, montada sobre o microfone, todo o conjunto fica estável, e acabam-se essas dores de cabeça. Grosso modo, penso que será eliminado muito do tempo de edição que existia até agora, aumentando o nível de qualidade logo na matriz. E isso deixa-me bem feliz. Por agora, vou-me habituando às distâncias, tentando ver como o som varia com as mesmas, e vou tentando substituir os textos contínuos por notas. Estruturar as notas por forma a articular um discurso contínuo será mais um desafio a superar.

Quanto às novidades, algumas vão surgir. Mas essas serão reveladas com o tempo.

Crédito da imagem: Paulo Heleno