Raízes

naom_5ba233c8b4eeb
Crédito: Gonçalo Cadilhe

Ontem, enquanto ia em viagem, ouvi na TSF uma reportagem com Gonçalo Cadilhe, da qual gostei muito. Confesso que não conheço a sua obra, apesar de já ter ouvido um par de entrevistas suas. Esta foi particularmente interessante e, para ser franco, fiquei com vontade de ler alguns livros. Contudo, foi no fim da mesma que um enorme sorriso fluiu na minha alma…dizia o autor que apesar das viagens, é nas nossas raízes que encontramos a nossa felicidade. A sensação que nos atravessa, quando estamos num qualquer local distante, de que nele poderíamos ser felizes o resto da vida, nada mais é do que uma ilusão, sendo no local onde estão as nossas raízes (no caso dele, Figueira da Foz), que verdadeiramente reside a nossa felicidade. E o sorriso surgiu porque é exatamente o sentimento que tenho vivido desde que regressei de um longo período fora do país, despertando-me profunda paz e felicidade, consolidando-se diariamente.

Dizia igualmente Gonçalo Cadilhe que as viagens ensinam-nos a relativizar aquela faceta mais “orgulhosa” enquanto povo, de considerar muito do que é nosso como o melhor do mundo…eu diria que no mundo, tudo tem o seu lugar e a sua importância, acima do que podemos pensar de forma mais superficial e imediata, por vezes muito influenciada pelas dinâmicas sociais do meio. Diria ainda que é essa relativização, que se estabelece por entre viagens, que nos ajuda a nos tornarmos mais cidadãos do mundo, trazendo o mundo para a realidade das nossas raízes… se o ser humano necessita de ter uma mente sempre aberta ao mundo onde vivemos, nele se completando, também necessita de um local, o seu local, as suas raízes, onde sempre regressa para cada dia ver-se um pouco mais realizado, maduro e mais feliz.

Uma breve viagem em Pessoa

fernando-pessoa1-800x445E porque hoje passam exatamente 131 anos sobre o nascimento do meu querido Fernando Pessoa…e porque ontem se falou aqui em viagens…aqui fica uma breve viagem nas suas palavras, que como sempre dizem tudo enquanto nos levam longe, para lá de onde desejamos estar…na paz de um doce desassossego…

Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

«Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.» Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

Fernando Pessoa, “Livro do Desassossego”

On the road

20190611_111404[1]
Crédito da imagem: Paulo Heleno

Dia de regressar às viagens. Dia de sol e céu azul, que me acompanharam por entre as nossas estradas, sempre ladeadas de um verde brilhante de verão. Até ao final do mês irei ficar a maior parte do meu tempo na região de Aveiro, toda uma zona onde me sinto bem, imerso nas suas cores e formas…para ser franco, nesta altura, o viajante não poderia desejar algo melhor. Regressei com um enorme desejo de passar mais tempo na minha terra, harmonizando-me com um sol que num passado recente foi ausente, e transpondo mais alguns degraus daquilo que considero ser a minha caminhada, numa visão cada vez mais larga que vou tendo da minha vida.

As estadias prolongadas no Brasil e no Reino Unido foram fantásticas. E se profissionalmente foi muito interessante, do ponto de vista pessoal foi sensivelmente um ano e meio de um verdadeiro banho de mundo, movimentando-me por várias realidades dentro da própria realidade destes países (cada um deles riquíssimo na sua diversidade), saboreando vários universos sociais, culturais, históricos, artísticos que decididamente me marcaram e me fizeram evoluir enquanto pessoa, rasgando o dogma da viagem de trabalho e atirando-o ao vento em mil pedaços, que se vão consubstanciando em pequenos passos em frente…por vezes grandes passos, que resistem como uma ponte para o futuro por contraponto aos rios revoltos do passado. Reconheço que é por vezes uma ponte de geometria variável 🙂 mas, passo a passo, a caminhada vai-se transformando em horizonte palpável.

Tornei-me um cidadão do mundo, pois apenas o mundo preenche a minha vontade de crescer e de o descobrir, sem dúvida com muitas mais viagens para fazer. Mas agora, sinto-me em paz, resguardado num espaço mais próximo, onde posso planear ideias para um futuro mais ou menos distante, com apenas uma certeza: somos o que escolhemos evoluir. Evoluímos na medida do que desejamos ser.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

Ericeira revival

20190419_143550[1]
Crédito da imagem: Paulo Heleno

Ribeira D’Ilhas é um local especial para mim. É daqui que parte, e é aqui que termina, o trail da Ericeira, que fazia todos os anos. Era a última prova do ano (realizada em Dezembro), onde a esmagadora maioria do pelotão do TCC se encontrava para um convívio saudável em prova, conjuntamente com todos os outros participantes que acorriam ao evento. A prova era sempre realizada em Dezembro, e normalmente chegava à praia ainda de madrugada, onde me esperava um vento muito frio, de que gostava particularmente.  E, como prova, não era difícil…rolante, agradável no cruzar de uma paisagem de cores muito bem definidas pelo frio de inverno que se exprimia em dias claros e luminosos, e com uma parte final muito bonita por toda a costa da zona da Ericeira, culminando na escadaria final e na meta, instalada no surf restaurant que lá existe.

Hoje voltei lá, e senti alguma nostalgia…foi o segundo trail que fiz fora de Leiria, depois da experiência de Sintra, e foi o primeiro trail onde vivi de uma forma mais individual (nessa edição), a solidariedade e o calor humano dessas provas, ao ajudar um companheiro, com cãibras em ambas as pernas…durante o tempo que corri (cerca de 5 anos), ajudei alguns companheiros, e alguns companheiros me ajudaram, com algumas situações de ambos os casos a marcarem-me do ponto de vista humano, e que ainda hoje recordo com uma não disfarçada emoção…não sou pessoa de esconder as lágrimas…não faz sentido esconder o que faz parte de nós, e o que de nós diz tanto…

Não me arrependi nunca de deixar de correr. A harmonia que vivi com a montanha, nos Pirenéus, foi de uma amplitude tal, que o Trail Running deixou de fazer sentido na minha vida…a montanha ainda hoje reside em mim numa essência muito diferente, na paz mais ampla que essa harmonia me faz sentir…a ela desejo voltar (vamos ver se será este ano). Mas não esqueço os bons momentos que vivi no trail, especialmente quando assumi o corte com as provas leirienses, e fui em busca de pessoas, experiências e lugares diferentes, que me ensinassem algo mais fora das rotinas instaladas…todos encontrei, e com todos cresci um pouco mais enquanto homem.

E por isso hoje, juntamente com a nostalgia que era embalada por um belíssimo dia de sol, senti igualmente uma profunda gratidão.

Travelling with Miles

1920x1440-miles-davis-in-concert
Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Sempre que viajo, gosto de ouvir Miles. O contacto com cenários novos, ou que apenas visito de vez em quando, convida-me a ouvir música, pois com ela consigo-os viver de uma forma mais interior, reverberando em mim de diversas formas. Mais calmos e rurais, ou mais intensos e urbanos, a música ajuda-me a interiorizar a energia do que vejo, relativizando o tempo enquanto me desloco por esses locais.

O som de Miles é extraordinariamente ambiental. Nos seus ritmos mais enérgicos consigo sentir, por exemplo, o pulsar do ritmo de um aeroporto, enquanto que nos seus ritmos mais lentos, consigo transportar para o meu interior o sentir de um avião a sobrevoar o mar, o que nos dá a sensação de estarmos virtualmente parados no ar. Gosto de o considerar como um som verdadeiramente orgânico, que se desloca connosco, e que parece ter as suas raízes nas suas próprias vivências enquanto homem, desde as lutas dos direitos cívicos, onde o seu pai teve um papel importante, e onde Miles absorveu a atmosfera de uns EUA em mudança abrupta que também o atingiu (perdeu vários concursos musicais na sua juventude para colegas brancos); até à contemplação em si mesmo da sua personalidade, da sua própria sensibilidade, procurando algumas vezes a paz por entre a tempestade.

Talvez por isso, e pela forma como evoluiu dentro desse contexto de época, indo sempre mais longe na exploração do seu inigualável talento, o seu som seja tão real em termos da ilustração do que observamos em nosso redor. Se é verdade que os tempos mudam, também é certo que eles podem ser captados em toda a sua essência através da arte, tornando-se intemporais na medida da sua própria intensidade intrínseca, e da profundidade com que esses momentos são vividos e sentidos, colocando-nos perante a contemplação intemporal da nossa própria humanidade.