Ainda a rádio na Guiné

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Crédito: Conexão Lusófona / África Turismo

Ontem, ao regressar a Leiria, voltei a ouvir na TSF esta reportagem sobre a implantação da rádio na Guiné-Bissau, sobre a qual já tinha escrito brevemente aqui. E regressou o  mesmo sentimento de uma profunda humanidade, e da simplicidade que assume quando desprovida da noite que algumas vezes rodeia o seu progresso…voltei a emocionar-me com a “Mãe da Rádio”, que não sendo uma pessoa de posses, disponibilizou 1000 francos da sua pobreza a um jornalista para que comprasse canetas para continuar a escrever notícias…ou do jornalista que afirma que, estar preso pela sua luta em relação à liberdade de ser e fazer rádio, foi dos períodos “mais lindos” da sua vida, ao sentir o calor da população, e a união nessa luta.

África, com as suas histórias que atravessam espaço e tempo, continua-nos a ensinar caminhos e passos na caminhada, devolvendo-nos o sentido do existir, e de nessa existência viver também em espontaneidade e de partilha. E isso, faz-nos muita falta nos tempos que correm.

No toque do sino

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Crédito referido na imagem

Os dias aqui em Ílhavo começam e acabam ao toque do sino. Não o da imagem, que é nada mais nada menos que o maior sino do mundo, feito na Polónia e colocado numa basílica brasileira, mas o da  igreja local, que não fica longe do hotel onde me encontro. O que é curioso é que o som nunca me incomodou, seja de manhã, seja ao final do dia…existe nele um sentir tranquilo, que praticamente se harmoniza com o silêncio matinal ou com o burburinho vespertino de uma pequena cidade que anoitece. A mente, essa, adora, e num enorme sorriso abre os seus braços a este som que se prolonga num tempo curto, tão curto quanto a distância que leva a tocar a alma. Numa linguagem menos poética, poderíamos dizer que o som do sino possui características que interagem com os nossos padrões de vigília ou de descanso…talvez…o certo é que é uma excelente companhia, que acompanha o meu sentir ao longo dos dias.

Simples

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Crédito: Paulo Heleno

Hoje foi o meu primeiro passeio à beira-mar, em férias. Com corpo e mente a adaptarem-se a uma vibração mais calma, fui, como sempre, lentamente caminhando rumo ao meu destino de sempre, aqueles locais onde as pegadas desaparecem e o silêncio reina…dei por mim a questionar-me sobre a simplicidade do viver, e como nessa simplicidade conseguiria expressar não apenas o caminho que vou vivendo, mas igualmente o que ele me vai traz, passo a passo, acima dos dias…

Paz…Amor…Amar…Ser…Ir…Nós…Tudo…Nada…Flor…Voo…Mar…Céu…Sol…Azul…Dar…

A vida é realmente simples quando cada passo se manifesta apenas em três ou quatro letras…

Fatigatis aptum

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Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação sobre o autor.

Na reta final para as férias, vou-me deixando levar pelo caminho…chego ao final dos dias com o corpo bastante dorido, enquanto que a mente revela uma imensa dificuldade em manter-se desperta, após o esforço cada dia maior de se manter ativa, e alguma dificuldade em dormir. Há um prazer imenso em ficar deitado, fechar os olhos, respirar devagar, e lentamente deixar o sono surgir por entre pensamentos que se apagam na medida da luz que a alma desnuda e desperta emana…vivo, nestes dias de mais exaustão, essa dicotomia entre o físico que dela padece, e da alma que dela se liberta, seja numa caminhada pelo ar ainda fresco do final do dia, ou pelo lento mas certo ato de dar vida às inúmeras notas que vão povoando o meu caderno azul, que em si condensa um céu marítimo no mar imenso…em cada fotografia que vai vendo a luz do dia aqui no blog, em cada escrito que aqui amadurece ou que nessas notas vai ganhando forma, existe um pouco de mim que desperta do cansaço, e que sorri por entre as palmeiras que muito suavemente bailam ao sabor da brisa, muito comum por estas paragens, e tantas vezes com um cheiro tão indelevelmente bom a mar…

Para mim,a alegria sempre foi azul… mais escuro ou mais claro. Mas sempre azul…e ainda hoje é esse azul que me desperta para a simplicidade do existir, e da felicidade que existe no mero ato de caminhar no trilho entre a noite que por vezes nos cerca, e o dia que sempre em nós amanhece, iluminando aquela semente que, apesar de tudo, está destinada a nascer em nós…

Hoje.

Amelia II

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Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação sobre o autor.

Passaram anteontem 82 anos sobre o desaparecimento de Amelia Earhart, naquele fatídico dia de 2 de Julho de 1937, numa altura em que sobrevoava o Oceano Pacífico Norte. Amelia, e o seu navegador Fred Noonan, realizavam uma tentativa de circum-navegação do globo, a bordo de um Lockeed Electra 10 E adaptado, tendo o contacto sido subitamente perdido após uma série de tentativas de estabelecimento do mesmo com as embarcações de apoio ao voo, na região da Papua-Nova Guiné. É um dos mistérios mais apaixonantes da aviação, sendo que recentemente, algumas novas evidências surgiram, fotográficas, parecendo mostrar a dupla poderia ter sido capturada por forças japonesas, falecendo em cativeiro. Na altura escrevi um pouco sobre isto, e o que me fazia sentir.

Amelia, de facto, era uma personagem notável. Desde cedo se revelou uma profunda entusiasta da aviação, adicionando-lhe um profundo sentido de aventura, lançando-se na vida, e na sua paixão, com um entusiasmo contagiante…para pagar as suas primeiras lições de voo, a jovem mas  já audaz Amelia foi fotógrafa, camionista e estenógrafa. E para se afirmar na atividade que tanto gostava, lutou muito contra uma opinião masculina que não via com bons olhos a ascenção de uma mulher absolutamente determinada em ser feliz. Era igualmente uma mulher profundamente apaixonada pela vida, tão romântica quanto aventureira, não se coibindo de mostrar os seus sentimentos de uma forma inocente, por entre a sua lendária teimosia e por vezes alguma obstinação. Foi um ícone da aventura, do feminismo, da emancipação, dos ideais fortes, que descobri através das histórias que o meu avô contava, quando ainda era criança. Desde aí, a “ligação” a Amelia é forte, tornando-se num ícone que também me ajudou a moldar enquanto pessoa, os meus desejos e as minhas ambições, uma vontade imensa de lutar e conquistar, mas, ao mesmo tempo viver, apaixonar-me pela vida. Se na minha vida tenho símbolos profundamente enraizados em mim, Amelia Earhart e o seu legado é um deles.

Há algumas semanas, enquanto pesquisava alguns livros nas estantes de uma livraria, para usar no meu voluntariado no Hospital de Leiria, deparei com um sobre a sua vida. Sentei-me, e li o livro por entre algumas lágrimas, sem qualquer dúvida em ficar com ele. É uma alegria muito grande partilhar um bocadinho da história da vida de Amelia com os mais pequenos…a  mim, enche-me o coração de profunda felicidade.

“No borders, just horizons – only freedom” A.E.