Filmes que marcam

Não sou muito de participar em correntes no Facebook. Mas nesta participei. Achei interessante a partilha de imagens de filmes sem mais qualquer referências aos mesmos…existe um certo sentir de melhor saborear as escolhas, rever momentos interiores sentidos a ver esses filmes. A lista poderia ser enorme, pois são imensos os filmes preferidos, mas preferi escolher os que, desses, me têm marcado recentemente. Assim, sem ordem de preferência:

1 – Memórias de ontem / Only yesterday (1991)

2 – Sombra / Shadow (2014)

3 – Uma história simples / The Straight Story (1999)

4 – A princesa Mononoke / Princess Mononoke (1997)

5 – Do céu caiu uma estrela / It’s a wonderful life (1946)

6 – 2001: Odisseia no espaço / 2001: Space Odissey (1968)

7 – A viagem de Chihiro / Spirited Away (2001)

8 – Vale Abraão / Abraham’s Valley (1993)

9 – Livre / Wild (2014)

10 – Noruwei no Mori / NOrwegian Wood (2010)

Vazio

Com realização de Bruno Gascon, e tendo feito parte da seleção do festival sérvio Human District, de 2016, assim como do Short Film Corner do festival de Cannes (do mesmo ano), Vazio é mais um filme que, como The Nest, nos dá um retrato realista da sociedade em que vivemos, sendo neste caso mais enquadrado com as dinâmicas psicológicas inerentes à realidade do dia a dia, e à forma como a falta de adaptação às mesmas nos pode por vezes colocar perante um labirinto sem saída, ou um precipício sem regresso. À beira de cometer um suicídio na madrugada de Lisboa, num dos pontos altos da cidade, a personagem principal não consegue encontrar o ponto onde a partir do qual a sua vida deixou de fazer sentido, tornando o seu viver numa deriva depressiva entre os dogmas vazios e puramente cénicos do seu emprego, e a família, onde cada vez menos se enquadra. Após uma primeira tentativa de suicídio, em que toma consciência desse vazio que domina toda a sua vida passada e futura, mata a sua família e o seu chefe, completando depois a sua queda fatal.

É um filme perturbador, que para além de nos alertar para a dessensibilização da sociedade em que vivemos, e para os desequilíbrios que pode provocar, faz-nos pensar igualmente que cada vez mais as pessoas sentem a necessidade de mudar algo nas suas vidas, seguindo novos caminhos pessoais e profissionais, fora do status quo moderno. É um sentimento tão sentido quanto verbalizado e passado à prática, e que alia uma maior consciência própria e da caminhada realizada, à busca de trabalhos e projetos menos padronizados que tragam um valor realmente acrescentado a essa caminhada…é o preenchimento desse vazio interior, crescente, que guia essas pessoas a um caminho diferente…é o aumento incomensurável desse vazio, por via da inércia da vida, que leva esta personagem a um caminho escuro, sem regresso.

Muito bem escrito e realizado, é um filme sobre o qual vale a pena refletir.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: Bruno Gascon

The nest

Realizado em 2018 por Jamie Jones, e produzido no Reino Unido, The Nest é uma curta-metragem perturbadora pelo seu realismo, e pelo facto de esse realismo ser em si mesmo, tanto mais próximo de nós quanto o desejamos por vezes ignorar. Apresentando como pano de fundo do argumento (também escrito por Jamie Jones) a crise imobiliária de Londres, e a forma como esta também se assume como um problema humanitário, despoletado pela frieza corporativa dos grandes conglomerados imobiliários, o filme assenta na história de uma mãe solteira que, de forma praticamente instantânea e brutalmente desumana, se vê despejada da sua casa com os seus três filhos,e o drama dos momentos seguintes. Toda a sequência de acontecimentos se manifesta numa Londres algo kafkiana, um ambiente que se manifesta desde a forma deficiente como muitas vezes os problemas da multiculturalidade são abordados, incentivando um cenário de nacionalismo das classes mais baixas, extremamente perigoso neste ambiente de Brexit, até uma certa ausência de realidade da juventude britânica, destas mesmas classes mais baixas, perdida num presente onde um futuro vazio se desenha numa sociedade bastante marcada pelos profundos erros de políticas sociais. transversais a todos os governos.

É um filme muito cru (no bom sentido) pela força do seu argumento e por uma realização simples que reforça essa força. Vale a pena ver.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: Beyond fiction

Videoclube

Com realização de Ana Almeida,em 2014, e fazendo parte da Seleção Caminhos do Cinema Português, assim como do MEO Curtas da casa (Douro Film Harvest), Videoclube foi a primeira curta nacional que vi, de ficção, que verdadeiramente me seduziu. E seduziu pelo filme despretensioso que é, algo que ao mesmo tempo o torna belo. É assente num argumento muito simples, mas bonito e bem construído, à volta da transição das vídeo cassetes VHS para os DVD’s e de como essa mudança impactou as dinâmicas de um pequeno videoclube. Sensibilizada por uma das clientes do mesmo deixar de poder ver o Casablanca, uma jovem adolescente entra no clube, à noite, para resgatar essa cassete do lote de venda, acabando por ser apanhada pelo jovem empregado, seu colega de liceu, e que aparenta ser uma pessoa superficial, desligada. Após uma conversa sobre o destino dessas cassetes, e atendendo ao facto de a esmagadora maioria das pessoas ainda não possuir leitor de DVD’s, os dois decidem, na mesma noite, distribuir as mesmas pelas caixas de correio dos clientes, de acordo com as listas de encomendas. No final, descobrem um pouco mais um do outro, para lá das aparências que sobre eles recaem.

São 17 minutos de uma história bonita, daquelas histórias que por vezes nos fazem muito bem, para sentirmos que o mundo, afinal, pode não ser tão complicado quanto o fazemos.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: Anexo 82

Mia

Uma deliciosa curta de produção holandesa e belga de 9 min, que nos faz arrancar um imenso sorriso. As aventuras de uma menina, Mia, que tenta a todo o custo recuperar um desenho feito por si, ilustrando-a de mão dada com a Mãe. Caindo no meio da confusão de uma estação de metro, é arrastado para fora da mesma pelo movimento desligado das pessoas. Num mundo descolorido e bidimensional, o casaco amarelo e a mochila verde de Mia destacam-se em conjunto com a sua vontade férrea de recuperar o desenho. Pelo meio, uma amizade com um cão, rafeiro de rua, que num abraço deixa a sua forma bidimensional e a raiva que o caracterizava, renascendo como o seu companheiro de viagem de regresso, onde Mia reencontra a sua Mãe num desafio final ao mundo triste e ausente que ousou vencer.

Um argumento muito bonito e muito equilibrado em termos de tempos, realizado pelo co-autor Wouter Bongaerts, e que aconselho verdadeiramente a todos. Serão 9 minutos de um sorriso que por vezes tanto necessitamos.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: Vivi Film