Desvio 45

O aproximar de uma tempestade é sempre uma boa razão para se voltar às curtas do Indie. Deste vez, mais um exemplo de bom cinema português, do já longínquo ano de 2002. Escrito, realizado e produzido por António Borges Correia, Desvio 45 é uma história de distorção temporal muito bem escrita e realizada…enquanto um casal de idosos simula uma viagem, num carro parado algures num descampado (onde outros idosos vão jogando voleibol), um casal jovem inicia a sua viagem de lua de mel. As ações de um casal são o espelho das ações do outro, uma técnica que poderia ser considerada cliché, mas que aqui surge com qualidade, não nos passando pela mente de que já a vimos em bastantes filmes…chegados a um desvio, o casal jovem entra por uma estrada secundária que os leva a ficarem perdidos, sem combustível, o que os leva a caminhar por entre o descampado, encontrando o seu futuro, no casal idoso que simula a viagem num carro que, na sua mala, tem um reservatório de gasolina, que permite ao casal mais novo seguir a sua viagem.

Essencialmente é um trabalho muito bem escrito, com uma boa realização. Com a música de João Gil a dar um toque muito positivo à criação de uma atmosfera de intemporalidade que marca todo o filme, que nos faz pensar se a idade não será apenas uma desculpa para pretendermos alargar a nossa imaturidade.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: António Borges Correia

Steve McCurry: a life in pictures

Não é segredo para ninguém que sou um fã de Steve McCurry. Já o disse aqui uma vez. Para mim, ninguém trabalha a cor como McCurry, e o seu trabalho faz com que este sempre fã do Preto e Branco, como o primado da forma e da sombra que faz sobressair a verdadeira luminosidade do sentir, não apenas do homem mas também do mundo; se compadeça e por vezes se torne pequena essência de nada na dimensão que a cor forma nestas fotografias, por entre um sorriso, uma lágrima, ou apenas um esgar de admiração pela forma como por entre a forma e a sombra, conseguimos pintar um mundo e uma humanidade tão bela.

O livro ainda não saiu, mas a Amazon já está a aceitar reservas de pré-venda.

Crédito da imagem: Steve McCurry 

Filmes que marcam

Não sou muito de participar em correntes no Facebook. Mas nesta participei. Achei interessante a partilha de imagens de filmes sem mais qualquer referências aos mesmos…existe um certo sentir de melhor saborear as escolhas, rever momentos interiores sentidos a ver esses filmes. A lista poderia ser enorme, pois são imensos os filmes preferidos, mas preferi escolher os que, desses, me têm marcado recentemente. Assim, sem ordem de preferência:

1 – Memórias de ontem / Only yesterday (1991)

2 – Sombra / Shadow (2014)

3 – Uma história simples / The Straight Story (1999)

4 – A princesa Mononoke / Princess Mononoke (1997)

5 – Do céu caiu uma estrela / It’s a wonderful life (1946)

6 – 2001: Odisseia no espaço / 2001: Space Odissey (1968)

7 – A viagem de Chihiro / Spirited Away (2001)

8 – Vale Abraão / Abraham’s Valley (1993)

9 – Livre / Wild (2014)

10 – Noruwei no Mori / NOrwegian Wood (2010)

Vazio

Com realização de Bruno Gascon, e tendo feito parte da seleção do festival sérvio Human District, de 2016, assim como do Short Film Corner do festival de Cannes (do mesmo ano), Vazio é mais um filme que, como The Nest, nos dá um retrato realista da sociedade em que vivemos, sendo neste caso mais enquadrado com as dinâmicas psicológicas inerentes à realidade do dia a dia, e à forma como a falta de adaptação às mesmas nos pode por vezes colocar perante um labirinto sem saída, ou um precipício sem regresso. À beira de cometer um suicídio na madrugada de Lisboa, num dos pontos altos da cidade, a personagem principal não consegue encontrar o ponto onde a partir do qual a sua vida deixou de fazer sentido, tornando o seu viver numa deriva depressiva entre os dogmas vazios e puramente cénicos do seu emprego, e a família, onde cada vez menos se enquadra. Após uma primeira tentativa de suicídio, em que toma consciência desse vazio que domina toda a sua vida passada e futura, mata a sua família e o seu chefe, completando depois a sua queda fatal.

É um filme perturbador, que para além de nos alertar para a dessensibilização da sociedade em que vivemos, e para os desequilíbrios que pode provocar, faz-nos pensar igualmente que cada vez mais as pessoas sentem a necessidade de mudar algo nas suas vidas, seguindo novos caminhos pessoais e profissionais, fora do status quo moderno. É um sentimento tão sentido quanto verbalizado e passado à prática, e que alia uma maior consciência própria e da caminhada realizada, à busca de trabalhos e projetos menos padronizados que tragam um valor realmente acrescentado a essa caminhada…é o preenchimento desse vazio interior, crescente, que guia essas pessoas a um caminho diferente…é o aumento incomensurável desse vazio, por via da inércia da vida, que leva esta personagem a um caminho escuro, sem regresso.

Muito bem escrito e realizado, é um filme sobre o qual vale a pena refletir.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: Bruno Gascon

The nest

Realizado em 2018 por Jamie Jones, e produzido no Reino Unido, The Nest é uma curta-metragem perturbadora pelo seu realismo, e pelo facto de esse realismo ser em si mesmo, tanto mais próximo de nós quanto o desejamos por vezes ignorar. Apresentando como pano de fundo do argumento (também escrito por Jamie Jones) a crise imobiliária de Londres, e a forma como esta também se assume como um problema humanitário, despoletado pela frieza corporativa dos grandes conglomerados imobiliários, o filme assenta na história de uma mãe solteira que, de forma praticamente instantânea e brutalmente desumana, se vê despejada da sua casa com os seus três filhos,e o drama dos momentos seguintes. Toda a sequência de acontecimentos se manifesta numa Londres algo kafkiana, um ambiente que se manifesta desde a forma deficiente como muitas vezes os problemas da multiculturalidade são abordados, incentivando um cenário de nacionalismo das classes mais baixas, extremamente perigoso neste ambiente de Brexit, até uma certa ausência de realidade da juventude britânica, destas mesmas classes mais baixas, perdida num presente onde um futuro vazio se desenha numa sociedade bastante marcada pelos profundos erros de políticas sociais. transversais a todos os governos.

É um filme muito cru (no bom sentido) pela força do seu argumento e por uma realização simples que reforça essa força. Vale a pena ver.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: Beyond fiction