Um novo Miles

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Crédito: Desconhecido. Solicito informação.

Será lançado a 6 de Setembro um álbum inédito de Miles Davis, que se irá chamar Rubberband. O álbum contém temas que foram gravados entre 1985 e 1986, sendo na altura preteridos em favor de Tutu, que seria gravado em Dezembro de 1986. É uma fase de mudança na carreira de Miles, com a assinatura pela Warner Brothers, no culminar de uma relação tensa com Wynton Marsalis que marcou os últimos anos de contrato com a Columbia, e o início da sonoridade que marcaria esta última fase da sua carreira, marcada por uma forte componente de trabalho em estúdio. Formalmente, penso que Tutu continuará a ser considerado o álbum que inicia esta fase,  apesar de agora se ter a noção mais concreta que o trabalho inicial de criação de uma novo sonoridade se iniciou cerca de um ano mais cedo.

Na época, estavam previstas as colaborações de Al Jarreau e Chaka Khan, que nunca chegaram a acontecer. As suas participações serão substituídas por Ledisi e Lalah Hathaway.

Escusado será dizer que estou bastante ansioso por ouvir o álbum. Depois colocarei aqui a minha opinião sobre ele.

Saudáveis dores de cabeça

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Crédito dos livros: Taschen e autores dos mesmos

Depois de um sábado a ben-u-ron’s e a gerir uma dor de cabeça daquelas que não deixa saudades, eis que o dia vai acabando e, felizmente, vai levando consigo esta malfadada maleita. Começa agora uma dor de cabeça muito mais saudável, e que se traduz na pergunta “em qual pegar primeiro?”.  Apetece-me pegar nos dois de forma simultânea, mas infelizmente, é preciso escolher. Quem disse que a vida é simples? E quem me manda ir sempre ver as prateleiras da Taschen?

Desde o seu lançamento já neste ano de centenário que “Bauhaus Mödels”, de Patrick Rössler, era já um desejo. Rapidamente se tornou um dos livros de referência sobre a temática da presença feminina na Bauhaus, e de como as mulheres que a frequentaram ajudaram a construir este ideal modernista, em virtude de ser o produto mais recente da constante investigação feita nos arquivos da escola. Ficamos assim com mais uma justificada referência à presença, ao carácter e à obra de mulheres como Marianne Brandt, Gertrude Arndt, Lucia Moholy entre muitas outras, que ousaram seguir o seu próprio caminho artístico de uma forma moderna e progressista, em tempos conturbados da história alemã, marcados pela forte crise e pelo advento do nazismo. São histórias de liberdade e coragem, que ainda hoje nos ensinam algo.

“Bauhaus”, de Magdalena Droste, foi publicado pela primeira vez em 1990, e é uma das publicações de referência em termos de história da Bauhaus, com a autora a ser uma das mais respeitadas vozes sobre o tema, fruto duma profunda dedicação ao estudo da escola em todas as suas facetas, parte dele levado a cabo nos Arquivos Bauhaus como académica assistente. Nesta nova edição, contamos com 250 novas imagens, que tornam o livro maior, mas também mais rico, relativamente a uma edição mais antiga que pude brevemente consultar há algum tempo.

Entretanto, vai continuando a saudável dor de cabeça.

Crédito das publicações na imagem: Taschen

Ao sabor do vento

Tenho andado com esta música na boca e no coração…acho-a lindíssima, e traz-me uma enorme paz, talvez porque está em completa harmonia com aquela que cada vez mais é a minha caminhada.

Crédito da música: Donovan

Uma breve viagem em Pessoa

fernando-pessoa1-800x445E porque hoje passam exatamente 131 anos sobre o nascimento do meu querido Fernando Pessoa…e porque ontem se falou aqui em viagens…aqui fica uma breve viagem nas suas palavras, que como sempre dizem tudo enquanto nos levam longe, para lá de onde desejamos estar…na paz de um doce desassossego…

Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

«Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.» Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

Fernando Pessoa, “Livro do Desassossego”

Travelling with Miles

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Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Sempre que viajo, gosto de ouvir Miles. O contacto com cenários novos, ou que apenas visito de vez em quando, convida-me a ouvir música, pois com ela consigo-os viver de uma forma mais interior, reverberando em mim de diversas formas. Mais calmos e rurais, ou mais intensos e urbanos, a música ajuda-me a interiorizar a energia do que vejo, relativizando o tempo enquanto me desloco por esses locais.

O som de Miles é extraordinariamente ambiental. Nos seus ritmos mais enérgicos consigo sentir, por exemplo, o pulsar do ritmo de um aeroporto, enquanto que nos seus ritmos mais lentos, consigo transportar para o meu interior o sentir de um avião a sobrevoar o mar, o que nos dá a sensação de estarmos virtualmente parados no ar. Gosto de o considerar como um som verdadeiramente orgânico, que se desloca connosco, e que parece ter as suas raízes nas suas próprias vivências enquanto homem, desde as lutas dos direitos cívicos, onde o seu pai teve um papel importante, e onde Miles absorveu a atmosfera de uns EUA em mudança abrupta que também o atingiu (perdeu vários concursos musicais na sua juventude para colegas brancos); até à contemplação em si mesmo da sua personalidade, da sua própria sensibilidade, procurando algumas vezes a paz por entre a tempestade.

Talvez por isso, e pela forma como evoluiu dentro desse contexto de época, indo sempre mais longe na exploração do seu inigualável talento, o seu som seja tão real em termos da ilustração do que observamos em nosso redor. Se é verdade que os tempos mudam, também é certo que eles podem ser captados em toda a sua essência através da arte, tornando-se intemporais na medida da sua própria intensidade intrínseca, e da profundidade com que esses momentos são vividos e sentidos, colocando-nos perante a contemplação intemporal da nossa própria humanidade.