Omnia in micro – 6

Num dia daquela semana, numa qualquer rede social, voltou a vê-la. Estava numa fotografia, tão bela quanto dela se lembrava, com o seu cabelo loiro apanhado por um olhar vivo, aquele olhar que sempre lhe despertava a imagem de um imenso prado verde, diluído na luz do sol matinal. Sorria como muitas vezes lhe tinha sorrido, e foi nessa lembrança que ele mesmo não pôde deixar de sorrir, enquanto passava o dedo pela fotografia. Mas com ela estava igualmente o azul dicotómico e sinistro da hipocrisia que a rodeava…um azul predador da aura que a rodeava, tacitamente aceite no seu viver…

Por isso ela era apenas uma fotografia. Por isso ele partiu, sem lutar.

Omnia in micro – 5

De Lisboa partiram para muitas paragens, enquanto na escuridão meio iluminada do autocarro partilhavam histórias de viagens a lugares distantes e desejos próximos de futuras partidas. De repente, o silêncio suavemente embalou-os, talvez pelo cansaço das peripécias do dia, ou pela saciedade dos seus íntimos…o sorriso que trocaram fez-lhe parecer que era a segunda hipótese…por fim, despediu-se dela e ela dele…mas verdadeiramente ela nunca partiu, e verdadeiramente, ele nunca terá chegado.

Omnia in micro – 4

Nas férias sentia, claro, paz. Trazida pelo sol quente ou pela neblina mística, que surgiam na praia…uma aparente dicotomia, unida por extremos, mas gerando sempre harmonia, e nela, consubstanciando-se essa paz. Igualmente o descanso, ou a dedicação aos seus projetos particulares, formavam uma nova dicotomia, mais mental, herdando essa paz, irradiada da alma…mas foi ao cuidar do seu bonsai, da terra e da sua rega, que sentiu as férias como o regresso a um estado puro em si mesmo…compreendeu então que a vida nada mais é do que o caminhar do essencial, para o essencial, deixando-se fluir por vários níveis da nossa existência, sem partir e sem chegar. E esse, no âmago das rotinas diárias, é o verdadeiro Caminho do Meio, individual, de cada um.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.

Omnia in micro – 3

Pelo sono pesado da noite levemente se libertavam os sonhos da manhã…o tempo, esse, limitava-se a seguir o seu trajeto…para ele, que erguido no canto do quarto contemplava o seu corpo deitado, era mais uma questão de luz… apenas ela rasgava esse tempo absorto na sua ausência, dele afastando os sonhos que nela acolhia…talvez afinal a noite não seja assim tão escura. Talvez nada mais seja que a ausência de luz no sentir de cada um.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.