Omnia in micro – 8

O mundo cada vez mais lhe parecia uma manta de retalhos. Uma manta antiga, já tão vivida quanto pisada, tão estendida quanto perigosamente recolhida, conforme as épocas por que passava. Pelo meio, os retalhos iam-se descosendo, apagando a sua união num emaranhado confuso de linhas partidas… soltas, mas não propriamente libertas… apontando para um qualquer vazio…estar em casa ou no seu exterior trazia-lhe sempre a mesma imagem…a de um mundo por vezes em despedida de uma humanidade que não o sabe viver, nem mesmo quando, num qualquer futuro bem próximo, enfrenta o risco de o perder.

Omnia in micro – 7

“O homem que se busca raramente é o homem que se encontra…na intenção da busca reside a afirmação de um caminho, por entre os extremos de uma escolha. Mas o homem que caminha, nem se busca nem se encontra. Ele apenas desfruta. Não se consome no tempo que se esvai, pois é no tempo que liberta a sua jangada à deriva no rio. “

Lentamente pousou o caderno, fixando o olhar no horizonte…

“Se fores o que sentires” continuou “ousa libertar-te desse sentimento…desfruta a paz que sempre emerge de simplesmente esqueceres o que serás”

Omnia in micro – 6

Num dia daquela semana, numa qualquer rede social, voltou a vê-la. Estava numa fotografia, tão bela quanto dela se lembrava, com o seu cabelo loiro apanhado por um olhar vivo, aquele olhar que sempre lhe despertava a imagem de um imenso prado verde, diluído na luz do sol matinal. Sorria como muitas vezes lhe tinha sorrido, e foi nessa lembrança que ele mesmo não pôde deixar de sorrir, enquanto passava o dedo pela fotografia. Mas com ela estava igualmente o azul dicotómico e sinistro da hipocrisia que a rodeava…um azul predador da aura que a rodeava, tacitamente aceite no seu viver…

Por isso ela era apenas uma fotografia. Por isso ele partiu, sem lutar.

Omnia in micro – 5

De Lisboa partiram para muitas paragens, enquanto na escuridão meio iluminada do autocarro partilhavam histórias de viagens a lugares distantes e desejos próximos de futuras partidas. De repente, o silêncio suavemente embalou-os, talvez pelo cansaço das peripécias do dia, ou pela saciedade dos seus íntimos…o sorriso que trocaram fez-lhe parecer que era a segunda hipótese…por fim, despediu-se dela e ela dele…mas verdadeiramente ela nunca partiu, e verdadeiramente, ele nunca terá chegado.

Omnia in micro – 4

Nas férias sentia, claro, paz. Trazida pelo sol quente ou pela neblina mística, que surgiam na praia…uma aparente dicotomia, unida por extremos, mas gerando sempre harmonia, e nela, consubstanciando-se essa paz. Igualmente o descanso, ou a dedicação aos seus projetos particulares, formavam uma nova dicotomia, mais mental, herdando essa paz, irradiada da alma…mas foi ao cuidar do seu bonsai, da terra e da sua rega, que sentiu as férias como o regresso a um estado puro em si mesmo…compreendeu então que a vida nada mais é do que o caminhar do essencial, para o essencial, deixando-se fluir por vários níveis da nossa existência, sem partir e sem chegar. E esse, no âmago das rotinas diárias, é o verdadeiro Caminho do Meio, individual, de cada um.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.