Omnia in micro -11

Reparou, no livro de registos, que o nome correspondia à sua língua. Sorriu. “Também sou de Portugal, do Algarve”. Da parte dele, depois de um dia de trabalho intenso, regressou a casa. A 3000 km de distância, o viajante voou num sorriso aberto e sincero até à paz. A sua paz. Que durante um breve momento foi também a paz dela, depois de um dia difícil.

Vai para um mês…

Enquanto estava a colocar o meu tablet à carga, algo que já não fazia quase desde o momento da compra há alguns meses, quase que me lembrei que tenho um blog…digo quase, porque de facto a magia da escrita não me deixa esquecer que tenho sempre aqui este espaço que me espera, nos bons ou nos maus momentos, nos momentos mais ou menos ocupados…por entre viagens e mudanças de hotel, avolumam-se as notas escritas e mentais, que se explanam entre ideias para artigos e podcasts, meras frases soltas, ou ideias mais vastas para algo talvez um pouco maior. O viajante é muitas vezes ultrapassado pela sua mente, que parece adivinhar o que no tempo sem tempo se vai formando um pouco mais na frente. E nessa viagem da mente, pelo tempo sem tempo, através de um espaço sempre em expansão, muitos destes textos e notas soltas vão se consubstanciando em realidades mais ou menos sólidas, ou sementes de uma esperança consolidada. Profissionalmente, algumas coisas vão continuando a nascer, com muito trabalho e espírito de sacrifício, e que espero serem definidoras de novos caminhos a trilhar, aos quais nos lançamos quando de facto percebemos que somos aquilo que escolhemos evoluir. E é também nesse evoluir que, pessoalmente, a janela da vida continua aberta a coisas novas.

No entretanto, o fluxo da vida tem sempre um espaço para a escrita, cimento antigo da minha construção. A parte de mim que não se esquece que tem um blog. Apesar de por vezes alguma preguiça se intrometer em toda esta dinâmica. Mas isso são outras histórias.

Omnia in micro – 10

“A energia para o dia que nasce tem sempre a sua origem no desgaste do dia anterior…” escreveu ela enquanto o chá vagueava pelo quarto em aroma de menta…”entre eles”, continuou, “existe uma noite plena de luz, um silêncio pleno da voz do teu sentir, um vazio que se expande no teu Ser, repleto do que em ti existe para ofertares a ti mesma.”

Parou para refletir um pouco, olhando a janela entreaberta na noite…

“Assim”, concluiu, “quando dormes apenas deixas de existir, por entre a fina cortina do descanso. Tornas-te tempo sem espaço, por entre o pleno do vazio que desponta no brilhar da luz, na paz da voz, no que em ti se renova para renasceres de novo no sol de um dia que amanhece”

Sorriu e lentamente fechou os olhos. No dia seguinte, motivada pela insistência de quem a procurava, a polícia entrou na casa, encontrando-a sem vida na sua cama. Na sua face serena, ia-se erguendo o sol da manhã. Partiu só, como sempre viveu: repleta de si.

Halloween

Ainda hoje referi numa rede social aqui ao lado que não sou grande adepto do Halloween. De facto não o sou, e faz-me impressão todo o marketing associado a esta época, que de forma vazia atinge os adultos. Mas gosto de ver os pequenitos com as suas fatiotas e a sua inocência (é também o que aprecio mais no carnaval). Mas o meu Ser já se sente atraído pelo que está na raiz do Halloween,  para lá da aculturação americana que sofreu, ou da matriz religiosa que lhe começou a dar alguma identidade moderna, nomeadamente a temática das bruxas. Para lá de tudo isto, nos tempos idos dos antigos povos celtas da era do paganismo, celebravam-se as colheitas com alegria e respeito pelas forças naturais, com uma emanação da essência feminina da vida. Isso aproxima-se muito da forma como vejo esta altura do ano, uma altura de celebração da vida que se renova, numa atmosfera especial de reconexão que me infunde profunda paz, como já tenho deixado transparecer em posts anteriores. O facto de nesta época se lidar muito com bolos também é especialmente cativante, diga-se em abono da verdade.

Adoro os Peanuts. Desde criança que o episódio especial de Halloween é um dos meus momentos preferidos em televisão, nunca perdendo as recorrentes repetições anuais. E assim, em homenagem a todos os pequenitos que vivem esta época de uma forma especial (e porque a minha criança interior também assim o pede), fica aqui a imagem do Linus, esperando ansiosamente pela Grande Abóbora. Que todos possamos, na época de transição conturbada em que vivemos, saber esperar pela Grande Abóbora com os pequenitos, libertando as muitas crianças interiores aprisionadas que por mim passam na rua. E ao mesmo tempo, celebrar a renovação da vida, imersos num dos cenários mais bonitos (o outono) que a natureza nos oferece.

Crédito da imagem: Peanuts

Omnia in micro – 9

Sobre um azul que nunca vira, num verde que nunca sentira, deitou-se junto ao abrigo de montanha abandonado, naquele planalto dos Pirinéus. Ali, acima dos 2500 m de altitude, havia um silêncio que nunca conseguiu encontrar em si mesmo…emergia dos pequenos fios de água que plantavam a terra, ou dos badalos das vacas que pastavam, tomando conta de si, fazendo-o encostar a cabeça à parede do abrigo, simplesmente contemplando a montanha em frente, erguendo-se no céu.

Não ficou. Mas ficou de um dia voltar…dois anos depois, no final de um dia de trabalho, puxou a si o caderno dessa viagem, e logo lhe surgiu a frase de Muir:

“The mountains are calling and I must go”.