Amazónia

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Crédito: Desconhecido. Solicito informação.

A Amazónia tem sido notícia nos últimos dias pelos piores motivos. A dimensão dos fogos que vão lavrando não têm par nesta década, e os protestos pela mesma dimensão fazem-se ouvir de uma forma global. Não esqueçamos, contudo, que antes deste despertar mediático, a floresta já ardia há duas semanas, sem qualquer ação de combate por parte do governo brasileiro, que nada mais é do que um suporte ideológico e de impunidade, não apenas para uma política clandestina de desmatamento deliberado do pulmão do planeta, mas igualmente de coação sobre ativistas e povos indígenas que lutam nas sombras de um surto populista do qual, estou certo, muitos brasileiros já se arrependeram de apoiar, quanto mais não seja pela reação tida à oferta de ajuda dos G7.

Nestas duas semanas, em que também, note-se, vai ardendo a tundra siberiana, com 5 milhões de hectares já perdidos entre as linhas do frenesim mediático, foi inevitável sentir o como a ditadura do agora nos difunde da nossa união ao planeta, impedindo-nos de viver o presente tal como deve ser vivido…com consciência do mesmo, deixando o pensamento vogar pelo mundo que nos acolhe e que ampara o nosso crescer, aprendendo. No meio desta saudável preocupação pela Amazónia, e por todos nós, não devemos esquecer que apesar da sua dimensão e importância, este pedacinho de terra onde Gaia um dia se sentou, contemplando-se no espelho das águas do Amazonas, é apenas uma parte de um sistema mais global que se encontra em profunda transformação por via das ações humanas dos últimos 150/200 anos, exigindo uma atenção mais glocal sobre como, no nosso pequeno espaço podemos intervir nesse sistema, por esse sistema, e como a consciencialização do que somos nesse todo, nos deve levar a atuar de uma forma mais quotidiana nosso pequeno espaço.

Um ponto, nada mais é do que o receio de ver uma linha. E esta, nada mais é do que o receio de nos lançarmos no espaço.

 

Come and go…

Crédito: Paulo Heleno

Uma das coisas que sempre adorei ver em Porto Covo é a forma como os grandes navios surgem e desaparecem no horizonte. Tudo se passa num infinito conjunto de momentos, em que a forma se vai materializando ou desvanecendo, como se o tempo fosse parando na medida em que a imagem se encaixa na mente e mergulha na alma. É um excelente foco meditativo, para quem gosta de meditação, deixar estes grandes barcos fluir de uma forma calma. É também origem de pensamentos díspares…de como tantas vezes devemos deixar certas pessoas, ações, momentos lentamente desaparecer da nossa vida no momento, e ao ritmo certos. E de como muitas pessoas, ações, momentos, vão surgindo na nossa vida, afigurando-se lentamente como preponderantes na mesma, também no ritmo certo.

Expectativas não nos levam a nenhum lado, e por isso já as abandonei há muito. Muito menos expectativas a concretizar no curto prazo, como que numa deriva conquistadora de vida, moda do momento, que nos vai transformando por vezes no ocaso de nós mesmos. Saber esperar, amar, deixar fluir, nada mais é do que o nosso estado fundamental de humanidade nestes tempos modernos e, principalmente, nos que se avizinham.

Omnia in micro – 15

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Crédito: Desconhecido. Solicito Informação.

Chegada aquele lugar, onde o vento se ilumina em sol e a areia se explana em mar, pousou a sua mochila e despiu-se. Enquanto as roupas caiam no silêncio da liberdade do momento, contemplou o azul à sua frente, que ali calmamente se explanava numa pequena enseada, como que enquadrando o seu corpo nu e pleno de vida numa qualquer tela de verão, inundada na luz de um qualquer tempo pausado naquele momento. Nele se deixou envolver como se o universo nela repousasse, boiando na contemplação do azul do céu. À sua volta nada existia, tudo se transformando em paz.

Osgas

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Crédito: Spyjournal/Flickr

Nunca percebi o porquê de tanto medo das osgas, pelo menos da denominada osga-comum. Talvez por alguma visão popular baseada em algum tipo de confusão com outras espécies, as desgraçadas das osgas são sempre vítimas de um conjunto de epítetos muito pouco condizentes com a sua realidade. De serem venenosas, até provocarem lesões de pele, passando pela sua falta de beleza, existe todo um conjunto de ideias preconcebidas, um preconceito que sem dúvida se alimenta da repetição sistemática das mesmas sempre com um toque negativo.

Para ser franco, não conheço animal mais tranquilo. Aprendi a apreciar esse comportamento quando ia passar alguns dias de férias na serra algarvia, onde existiam muitas, encontradas nas situações mais díspares. Com mais ou menos movimento, elas  permaneciam na sua abstração, imperturbáveis, apenas fugindo mais vigorosamente quando na presença de atitudes mais enérgicas, e não interagindo de forma agressiva.  Por outro lado, as osgas são excelentes reguladores do ambiente onde se existem, contribuindo para a regulação de espécies, nomeadamente melgas, mosquitos, aranhas, escaravelhos, formigas (entre outras), contribuindo para um funcionamento mais normal do ecossistema. E quanto à beleza…bom…quase que me apetecia dizer que há pessoas que realmente não se podem queixar…

E posto isto, quase que me apetece dizer que se por acaso virem osgas estas férias, deixem o bicho em paz. Com toda a certeza não vos fez mal nenhum, e não gostarmos do seu aspeto não é razão para as perseguir. Abrindo a nossa mente, com toda a certeza podemos aprender algo com elas. Eu aprendi.

Omnia in micro – 14

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Crédito: Desconhecido. Solicito Informação.

Sempre que entrava na sala, já submergindo na contemplação abraâmica do rio, perguntava-se porque estava tão vazia…os seus passos ecoavam no silêncio do abandono que parecia ter tomado conta daquele lugar, por entre vozes díspares e ocasionais que ecoavam longe, indistintas, vazias…tentava por vezes entender o que diziam, mas tal sempre lhe escapava. “Se não as compreendo”, pensou ela, “não serão importantes…não são as minhas”.

E chegada à janela, pelo caminho das vozes sem rumo, deixava-se partir num olhar.