Variações

Tinha 10 anos quando o António Variações partiu (para ser exato, estava a dias de fazer 11). As memórias que tenho são algo difusas, de uma pessoa diferente…uma pessoa que tinha consigo uma capacidade inata de ver cor num país que era de facto ainda muito cinzento. Tudo o que ouvia dele fazia-me sentir que de facto a sua diferença era grande, contagiosa, chegando longe por entre os muitos preconceitos da sociedade portuguesa da altura, e bastou-me ouvir as canções para ter a certeza. Na altura não percebia algumas letras em todo o seu esplendor, cristalinas nessa diferença em cor que parecia irradiar dele…da a sua morte, lembro-me da dimensão que esta teve no nosso muito pequeno país da altura, e lembro-me que, no meu crescer, fui ouvindo o António com mais atenção, e ganhando uma profunda admiração por ele, e pelo seu trabalho musical que foi mais que imensamente inovador, foi um ato de coragem, de ser livre num país que ainda não percebia bem a liberdade recentemente conquistada…ainda hoje, Anjo da Guarda é uma das minhas canções preferidas, uma muito bonita expressão interior de fé, muito pessoal, e com muita cor.

Fiquei muito feliz por saber que vai estrear um filme sobre parte da sua vida. Acho que o  António Variações nunca recebeu a homenagem que devia ter recebido. Sim, é verdade, houve o trabalhos do Humanos, há alguns anos atrás…agora o filme…fica a faltar qualquer coisa, qualquer coisa que signifique que o país cresceu, tornou-se um pouco maior. Desejo que pelo menos o filme seja bastante visto, e que pessoas mais velhas e mais novas conheçam um pouco mais do grande Variações, e que nestes dias plenos de luz e calor, absorvam um pouco da cor que ele nos deixou.

“Tenho pena de morrer, mas não medo. Tudo o que acaba me deprime. Mais pelo fim do que pelo acto em si.” AV

Habemus fotos

Figueiranoite
Crédito: Paulo Heleno

As pessoas que seguem o Omnia mais de perto repararam que surgiu um novo tópico. Fotografia. E sim, é verdade, era um tópico que aparecia e desaparecia um pouco ao sabor das ilusões e desilusões dos serviços de visualização, que nunca me satisfaziam. Por outro lado, finalmente acho que finalmente me consegui libertar um pouco da capa de “pai-galinha” das minhas fotografias, o que permitiu olhar para o que queria fazer de uma forma mais vasta e simples…nada como mudar os óculos com que vemos o mundo, para o mundo aparecer diante nós de uma forma bem mais direta e descomplicada.

Assim, as fotografias irão começar a ter aqui a sua casa, numa disposição macro dividida entre um portfolio de cor, mais generalista, e vários, temáticos,  a preto e branco. No primeiro caso, já conhecem as fotos do Instagram (fotografo muito pouco a cores, usando máquina fotográfica). Gosto do Instagram, e divirto-me bastante com a utilização dos filtros. Muitas vezes, em viagem, é uma forma muito versátil de fotografar e partilhar, de rapidamente transmitir uma mensagem, um pensamento, uma voz…não acho de todo que seja uma menoridade… Acho, e ainda esta semana escrevi isso na LinkedIn, que estimulou um sub-género mobile muito interessante, onde, se procurarmos com atenção, encontramos pessoas a fazer coisas mesmo muito interessantes. Aqui, algumas dessas fotografias terão um tratamento mais clássico, mas ainda assim, partem da mesma matriz que originou a versão “Instagram”. Quanto ao Preto e Branco, será um conjunto de álbuns temáticos que irão vendo a luz do dia de uma forma talvez um pouco mais lenta, mas de uma forma contínua. Algumas fotografias já têm algum tempo, e ganham aqui uma nova vida. Outras serão reveladas mais perto do final do ano.

Por último, referir que não me importo que usem as fotografias para publicar no âmbito dos vossos trabalhos ou hobbies. Contudo, gostaria sinceramente que se tal acontecer, coloquem o nome do autor, e o endereço onde se encontram. Todos somos aquilo que damos, e caminhamos naquilo que recebemos…pelo meio, existe sempre algo que todos ganhamos no respeito pelo trabalho do outro, e pela forma como esse trabalho nos pode, quem sabe, também fazer-nos ir um pouco mais além. Num mundo de tantos desencontros, saber partilhar apenas pela expressão do sentir dessa partilha é o redescobrir de algo belo, de como todos podemos ser capazes de caminhar em conjunto, naquilo que em cada um de nós vamos descobrindo, no convívio com todos.

A luz do voltar

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Crédito da imagem: Paulo Heleno

Esta semana já a passei por completo em Portugal. É o início de um período em que tenciono passar mais tempo por terras lusas, e que se deverá estender até ao final do verão. Mas se a semana foi ainda de trabalho intenso, ao ritmo e à pressão inglesas, nos fins de semana consigo fechar os olhos e respirar um pouco do meu viver…tenho aproveitado para sair de Leiria, passear, conduzir, sentir sítios com uma harmonia especial, pela forma como a sua energia me preenche…talvez relacionado com isso, tenho instintivamente voltado um pouco à fotografia, nomeadamente através do Instagram (pode ter muitos defeitos mas é uma ferramenta muito prática). Os resultados podem ser vistos por lá, mas, para ser franco, começo a sentir um desejo de pegar nas minhas “meninas”, não apenas na digital, mas também nas minhas duas analógicas.

Sempre disse que existe uma espécie de “estar fotográfico” ou de “sentir fotográfico”…o tempo passa mais lento, e o olhar torna-se mais fundo, como que me segredando na alma aquilo que vejo, num ambiente de silêncio em mim que me acalma o caminhar…as fotografias surgem naturalmente ainda antes de erguer a máquina, e para ser franco, não me preocupo com regras, porque simplesmente não me interessa seguir regras na fotografia…são apenas uma perda de tempo e de desfocar a essência do meu sentir, para além de que são, acima de tudo, expressões formais de relações de sentir naturais com o meio, na expressão da beleza ou do desagrado com que um cenário ou mesmo uma pessoa se afigura perante nós, seja numa expressão física, de como o nosso cérebro reage a certo tipo de padrões, seja mesmo num plano mais profundo, mental e espiritual…fotografar tem muito mais a ver com sentir do que com pensar.

Também por isso, fotografar nestes dias, ainda que com o Instagram, tem sido basicamente uma catarse, uma libertação intensa das regras da semana, e que se junta ao sentimento de que este ano de 2019 será um ano de transição. Estando mais por cá, também a escrita e os podcasts voltarão com mais frequência. Mas a fotografia, como sempre, chega primeiro. E eu gosto que assim seja.

90 anos de Morricone

Faz hoje 90 anos uma das lendas vivas das bandas sonoras cinematográficas. É muito complicado colocar toda a dimensão da genialidade de Ennio Morricone num único post que com toda a certeza deixará muitas obras primas de fora…as suas composições não são apenas parte dos filmes em cujo processo criativo colabora. São igualmente a atmosfera desses filmes ou séries televisivas, de um tempo histórico ou emocional que dá ao conjunto uma força intemporal…e muitas vezes é a beleza das composições de Morricone que nos devolve a primeira memória de uma obra. Dos Western’s Spaghettis, como O Bom, o mau e o vilão ou o magnífico Aconteceu no Oeste (que inicia este post) até filmes como O Exorcista II, Era uma vez na América, Os Intocáveis (versão clássica de 1967 e moderna, de 1987), O Fantasma da Ópera… são apenas dalguns dos exemplos mais conhecidos da sua obra, em conjunto com a banda sonora da série O Polvo”.

É sem dúvida, para todos os fãs da sétima arte, uma data a celebrar, pelo seu contributo de momentos de cinema inesquecíveis.

Crédito da imagem: World Soundtrack Awards

Akiko

Uma mulher perdida numa estrada noturna. Uma visão da passagem entre vidas por entre o cenário vazio de um qualquer momento de transição, onde a vida e a morte se consubstanciam em harmonia num cenário sem tempo, e onde a personagem se busca no meio da busca do que vai acontecendo ao seu redor, ao mesmo tempo que revive os seus últimos momentos na realidade da sua vida. Gostei muito deste Akiko, escrito e realizado em 2008 por Michael Sewandono. Um exercício visual muito bem conseguido e que vale a pena ver.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: LEV Pictures