Oscar & Valeria

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Crédito da imagem: AFP

Já estava deitado, mas esta imagem não me saía da cabeça…tal como no caso de Aylan Kurdi, esta não é uma imagem única, que aconteceu neste momento no tempo. Esta é uma imagem sem tempo, porque reflete algo que acontece com uma frequência macabra, uma repetição que incomoda, que normalmente não se gosta de enfrentar numa espécie de não admissão de luto coletivo enquanto humanidade, num purgatório situado entre a ausência de perceção do que nos trouxe até aqui, e a ausência de visão sobre para onde vamos, a partir daqui. Afinal, num vórtice de conceitos vazios, a humanidade vai-se tornando ela própria vazia, na medida em que coletivamente a varremos do nosso ser, numa perspetiva egótica e eugénica do nosso próprio vazio, enquanto Ser individual e social…uma sanitização coletiva da nossa história, que apenas lança um enorme nevoeiro sobre o nosso futuro, fazendo-nos cada vez mais esconder instintivamente nos discursos fáceis e populistas, adaptáveis à plasticidade da sociedade moderna, que glorifica o sonho do outro em ser feliz, por troca da nossa infelicidade, mascarada de ideologia.

Talvez isto explique o porquê de situações como esta estarem a acontecer a um ritmo alarmante nas fronteiras dos EUA e da União Europeia…tradicionais paladinos da liberdade e, pela sua história, destinos tradicionais de emigração, de zonas de crise, em situações de crise…mas cada vez menos existe a noção de mundo e de história, por troca com a necessidade de, para atingir as metas e os valores que a superficialidade da era moderna impõe, nos tornarmos mais pequenos, na glorificação do vácuo das fronteiras e de uma visão quase racista de povo, algo que estes novos movimentos nacionalistas fazem, infelizmente, muito bem.

Porque as ideias estão muito presentes, mas o sono vai apertando, uma última palavra para a fotografia em si…sim, deveria ter sido tirada. Esta e outras. Sim, deveria ter sido publicada e difundida…esta e outras…

Este assunto irá voltar ao universo Omnia.

O cuidar

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Crédito da imagem: José Camarinha

Há algumas semanas atrás fui à Figueira da Foz ouvir a Carla Neves falar sobre Cuidadores Informais. Estava, lembro-me, uma noite bonita, amena, convidativa a ouvir e conhecer um pouco mais sobre esta causa que também me desperta memórias pessoais de tempos idos. São memórias por vezes guardadas em nós mas que, na vertigem dos tempos modernos, e apesar de muitas vezes essa interiorização ser uma auto-defesa, devem dar lugar a abertura do nosso coração a uma visão mais social destas situações, aberta, solidária e cidadã, num tempo em que cada vez mais se fazem sentir desafios sociais e geracionais que a todos nos afetam, de forma mais ou menos direta, traduzindo-se em mudanças fundamentais nos paradigmas de relacionamento e vivência dos núcleos familiares e da própria comunidade.

A Carla é uma de 800.000 Cuidadores Informais existentes em Portugal. A voz cansada, mas decidida, e a humildade do discurso trazem consigo a alma de pais, mães, irmãos, irmãs, primos, primas, tios, tias e por vezes amigos, que se dedicam a cuidar de quem tantas vezes deles cuidou, num verdadeiro ciclo de Amor que se traduz no desejo de cuidar por cuidar, evitando fenómenos de institucionalização que muitas vezes são mais nocivos que positivos. Pessoas que abdicam de toda uma vida pessoal, social, profissional em prol desta causa e que naquela noite, pela voz de uma delas, se abriram a nós, contando um pouco das suas vivências…das noites sem dormir, dos dias inteiros de prestação de cuidados de saúde, da constante monitorização de segurança dos que são cuidados, da exaustão, da falta de uma vida social (e por vezes familiar), dos parcos apoios do Estado…uma viagem por uma contextualização geral, mas também por casos concretos, também vindos da assistência, e que me impressionaram profundamente…por muito que cada vez mais os media disponibilizem tempo a esta causa, os relatos em primeira mão trazem-nos essa energia, que mexe connosco e nos desassossega de uma forma saudável, no contacto com realidades que a evolução social por vezes nos fez esquecer.

Falou-se igualmente de apoios. De um Estatuto do Cuidador Informal que nasceu a partir do nada, pela luta de todos, e que todos esperamos ser o início de uma alteração profunda na visão social desta situação, orientando estas pessoas ao acesso a mecanismos que permitam não apenas um aumento substancial dos subsídios atribuídos (presentemente algumas pessoas sobrevivem com valores que não chegam aos 200 euros mensais), mas igualmente à obtenção de pensões de reforma, entre outras situações que vão desde apoios ao descanso do Cuidador, até mecanismos de licenças em ambiente laboral. Falou-se no trabalho fantástico que vai sendo realizado ao nível local, não apenas por câmaras e freguesias que decidiram elas próprias avançar com iniciativas que podem proporcionar bons modelos para a evolução do Estatuto do Cuidador, mas igualmente pelos centros de saúde, que aliam as valências técnicas ao conhecimento das situações concretas, e à humanidade natural que naturalmente deve nortear os prestadores.

E, falou-se de nós. De cada um de nós…eu…tu que lês este artigo. De como cada um pode ajudar um Cuidador,  no seu dia a dia. Vivemos numa sociedade onde é tão glorificada a visibilidade dos resultados conseguidos, que o simples resultado em si, a pequena semente de algo, é quase sempre ignorada…ajudar numa tarefa, ir ao supermercado, consertar algo que se estragou e que é essencial para aquele Cuidador ou até simplesmente estar perto, e deixar fluir o sentimento de ajudar…tudo o que é grande começa no todo que é pequeno…nas pequenas ações que se podem propagar pelos enormes círculos de amizade e solidariedade que rodeiam os cerca de 800.000 cuidadores, pode estar o início de algo que todos temos de assumir como um desígnio comum para o futuro de todos.

 

 

Iker

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Crédito da imagem: JN

Ao ouvir a notícia de hoje relativa ao enfarte de Iker Casillas, não pude deixar de ter logo, como primeiro pensamento, uma das últimas consultas médicas que tive…depois de descrever o meu trabalho, o médico pausou um pouco, dizendo-me que parecia um pouco cansado. “Ajudava ter um hobbie” disse ele, levando-me a pensar qual das n coisas que amo fazer e que há muito tempo não faço, devia escolher. Talvez tenha sido um pensamento egoísta…obviamente que desejo que tudo não tenha passado de um susto, e que Iker continue a maravilhar os adeptos de futebol com a sua arte. Mas foi o meu primeiro pensamento…para ser franco, desde o que aconteceu ao João Vasconcelos que tenho pensado nestas situações, despertando-me toda uma reflexão estruturante  sobre o meu quotidiano. Sempre senti dentro de mim que 2019 ia ser um ano de evolução, tal como foi o ano de 2016, com todos os seus acontecimentos que guardo com carinho. E os caminhos que tenho trilhado nesta questão, iluminam novos caminhos que vão surgindo, na enorme paisagem aberta há cerca de 3 anos.

É assustador o ritmo a que estas situações vão acontecendo.

Fim do mundo

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Crédito da imagem: RTP

Na minha viagem de hoje, por entre uma zona costeira da região centro banhada pelo sol, ouvi com prazer esta reportagem da TSF sobre as rádios comunitárias da Guiné-Bissau. Devo dizer que me emocionei ao ouvi-la. E emocionou-me sobretudo a forma humilde e simples e ao mesmo tempo tão assertiva e voluntária como o nosso povo irmão da Guiné vive a comunidade, e o trabalho para o bem dessa mesma comunidade, defendendo com tenacidade o direito dos que não têm voz a terem a sua opinião, a exprimirem as suas vidas e as suas ideias, num serviço essencialmente comunitário para o bem de todos. Foi bonito ouvir o orgulho e o empenho com que os fundadores destas rádios, assim como aqueles que nelas trabalham, têm nas mesmas e no seu papel, muitas vezes contrariado pelas autoridades.

Partilho agora com todos vós esta reportagem. Vale muito a pena ouvir.

Brexit

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Crédito da imagem: Duncan Hill

As manifestações que ontem se realizaram em Londres nada mais são do que uma tentativa do povo britânico de retomar a capacidade de decisão sobre o final desta novela. Por via da imprensa falada ou escrita, o país tem sido inundado por um conjunto de debates e expressão de ideias que, na prática, se consubstanciou em muito pouco, com a verdadeira ação a ter lugar em Whitehall, numa sucessão de debates absolutamente lamentáveis, e que têm apenas como objetivo dar expressão pública às correntes que se vão movendo dentro do Partido Conservador para a substituição de Theresa May, e um Partido Trabalhista, sem rumo definido, que orienta as suas velas de acordo com os ventos dominantes, sejam eles quais forem, desde que resultem em eleições antecipadas.

Theresa May cometeu um erro fundamental. O de continuamente afirmar que o Brexit era a decisão expressa de uma vontade dos britânicos, à medida que com o passar do tempo, o país ia sendo invadido por revelações sobre os bastidores da campanha do Brexit que cada vez mais indicavam que interesses políticos e financeiros, muitas vezes em conluio, se organizaram para que o resultado fosse o que se verificou. E principalmente na zona de Londres e de outras grandes cidades como Manchester, crescia principalmente a indignação das gerações mais jovens, até aos 30 – 40 anos, assim como a preocupação do tecido empresarial. Por entre os dois, o espectro de uma recessão alargada e prolongada na economia britânica esteve sempre presente nas discussões.

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