Saudosismo

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Crédito: Desconhecido. Solicito informação.

Confesso que vejo com alguma estranheza as ondas de saudosismo que amíude invadem os que me rodeiam…não sendo eu pessoa propriamente virada para as recordações, sinto-me por vezes perdido numa dimensão algo intemporal, por entre tanto desejo do regresso de um passado mais ou menos distante, e que traz consigo uma sensação circular, do algo já vivido que desponta por entre algo ainda a viver.

Vejo nisso a afirmação de silêncios modernos que vagueiam em nós sem destino, filhos de uma casa pródiga nunca encontrada. O regresso à infância e adolescência assume-se basicamente como o regresso bucólico a um tempo mais simples, de menos restrições e mais permissões, onde os horizontes renasciam por entre as tristezas volúveis das tempestades primaveris desses tempos. Existiam sonhos, esperanças…acima de tudo, existiam escolhas, que se tornavam maiores e mais abertas quanto mais longe se ousava ver, ou quanto mais se sentia a intensidade do viver. Volta-se, sobretudo, ao único ponto da vida onde muitas vezes se sentiu uma verdadeira felicidade e, mais do que isso, uma verdadeira conexão com uma identidade que muitas vezes, no presente, se sente perdida, algures no caminho.

A submersão nas realidades sócio-económicas diárias reduzem os sonhos, esculpem o tempo por entre a rigidez das rotinas, aprisionam os hábitos nos ditames morais do que deve ser a evolução da pessoa no seu trilho de vida, molda-se o Ser no navegar por entre cortinas de fumo permanentemente mutáveis. Temos a noção de que deixámos de ser exploradores da vida, ousados no que desejamos para a nossa felicidade, para sermos visitantes de pequenos mundos, fabricados fora de nós, e onde a circularidade da existência torna-nos nada mais do que uma gigantesca montra para poderes que não controlamos, mas cuja existência desejamos na vida diária, pois nessa existência, ainda que cénica e virtual, encontra-se um rumo, por vezes há muito perdido.

Ainda assim, assistimos a novas formas de pensar a vida, que não a da resignação ao recordar da vivência do passado. A consciência do que se perdeu começa a ser fundamental no emergir de um novo tecido social, menos fundamentado nos dogmas sociais, e mais no que se deseja buscar da nossa felicidade…consubstancia-se, no geral, no regresso a uma vida mais simples, mais minimalista de ver a nossa caminhada. De formas variadas, mais ou menos dramáticas, assistimos a quebras de laços afetivos, profissionais ou sociais, emergindo novos paradigmas de relacionamento (independentemente do tipo), trabalho ou social, mas igualmente de relacionamento com a humanidade que a todos nos une, e com o planeta que nos acolhe. Em todos esses casos, cada vez mais presentes, podemos também ver um regresso ao que fomos, devolvendo sorrisos, retomando a capacidade de escolher e de definir novos horizontes. É uma renovação mais estrutural da sociedade que, parece-me, é bem mais estimulante, bem mais geradora de desafios para nós e para as gerações futuras, do que induzir uma falsa sensação de felicidade através de uma rotina circular entre o vazio dos dias, e um desejo mais automático do que refletido de ir a uma qualquer festa, embarcar numa qualquer moda revivalista, ou ir a um qualquer ginásio para um reencontro com um passado que não volta.

Torna-se igualmente interessante refletir sobre a estrutura sócio-económica que tendencialmente nasce deste movimento. Da emergência de uma economia mais direta, colaborativa e local à economia circular, passando por reduções nas necessidades de consumo, uma maior consciência ambiental e uma redução das necessidades produtivas em organizações que cada vez mais tenderão a colocar a sustentabilidade do homem e do meio como pilares da sua atuação, é algo a ser analisado com muita atenção, numa reflexão que (apesar de estarmos perante uma tendência de médio/longo prazo) apenas depende da nossa vontade em olhar o futuro a partir do nosso ponto presente, e de não esquecermos o principal objetivo que norteia a caminhada humana. A felicidade.

 

 

Causas

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Crédito: FOX

Fazer uma maratona de Ficheiros Secretos dá-me um enorme prazer. Porque aprecio a série e o tema. Mas acima de tudo porque, na ficção e na realidade aprecio alguém que luta por uma causa. Apenas lutar por uma causa…e se na ficção o semear do tema ainda garante a colheita de grandes histórias, na realidade pouco já existe, disperso na bruma densa dos objetivos.

Soc.Dem

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Crédito: ECO

Existe em Portugal uma forma muito latina de se olhar a política. Mas, mais do que isso, existem ainda algumas feridas que após cerca de 44 anos ainda se mantêm injustificadamente abertas, reforçando a visão mais baseada no combate puro vitória/derrota, em detrimento da construção de pontes que permitiriam a definição de uma visão mais moderna do pretendido para o país. É algo que exige estudo, análise e reflexão conjuntos (começando inevitavelmente dentro dos próprios partidos), pois cada vez são mais complexas e dinâmicas as variáveis que definem não apenas as vidas pessoais, mas a nossa caminhada enquanto país.

Sempre fui um Social Democrata. E continuo orgulhosamente a ser, embora ciente de que a Social Democracia enfrenta novos desafios, decorrentes do fim da era das ideias e ideais desenhados em regra e esquadro. Nesse sentido, estamos perante uma reflexão que apela a um voltar às raízes da própria Social Democracia, à sua diversidade, transversalidade no tecido sócio-económico e capacidade de geração de pensamento crítico orientado a um fim, compreendendo que mais que os ideais (ainda com o seu peso), é a realidade prática das novas abordagens económicas, sociais, tecnológicas ou ambientais que deve ser a base de uma nova fundamentação da ação política. Não alinho na opinião de que os partidos tradicionais estão mortos, mas estão a bibernar numa sequência de ciclos intermináveis de alcance limitado e fechado. As suas portas devem-se abrir, os seus membros devem olhar e analisar o que os rodeia, as suas salas devem-se encher de verdadeiro espírito de missão, alicerçado na visão global de um mundo que mais do que pular e avançar, parece ter uma mecânica infantil de querer ignorar os desafios dos rumos que toma. É essencial trazer esse mundo, em diversas escalas, para dentro das sedes partidárias, deixando que que ele seja um motor de vontades e de novos caminhos, pelo trabalho de todos.

Não tenho, como é óbvio, o dom da clarividência para fazer julgamentos prematuros de Rui Rio, ou elogios sobre o que ainda não aconteceu. Mas para já, revi-me no discurso de encerramento do 37º Congresso do PSD. Para além de me sentir alinhado com as linhas políticas gerais que orientarão o partido nos próximos tempos (parecendo-me recolocar o partido num posicionamento que lhe é mais natural), senti igualmente uma vontade explícita de abrir o partido e atualizar as suas práticas, dentro do que deve ser a sua  intervenção nas áreas onde está inserido. É algo que, como militante de base, me agrada, embora reconhecendo que tal mudança não acontecerá já amanhã, ou depois…o segredo do sucesso da revitalização de qualquer estrutura organizacional reside na gestão entre a mudança efetiva e o timing da mesma, existindo entre as duas fases todo um trabalho de reflexão e planificação. Essencialmente, penso ser este o caminho que pode permitir alcançar a mudança de paradigma no meu, e em todos os partidos, numa aposta que vale a pena. O tempo (e as pessoas) dirão de sua justiça sobre o esforço e o resultado desta mudança.

 

 

Torga reeditado

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Crédito: Site Casa-Museu Miguel Torga

Uma reedição da obra de Miguel Torga é sempre algo que destaco. Porque Torga é uma paixão antiga, quase paradoxal na minha vida. Existe na sua austeridade (um atributo de personalidade que em mim não encontro), uma força que alimenta a vitalidade do seu pensamento, que se mantém simples, direto, e sem filtros, evocando a visão do homem enquanto povo, do povo enquanto país…e do país que daí resulta, em retratos mais ou menos positivos, mas sempre com o sentimento de quem nunca pretendeu ser mais do que um homem do povo, entre o povo. Um pensamento despretensioso, e, por isso, cada vez mais raro nos dias que correm, mas igualmente cada vez mais necessário. Um grande bem haja às Edições D. Quixote, por esta iniciativa.

Falcões

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Crédito: Edward Hopper

Quando vi Nigthawks pela primeira vez, demorei algum tempo para passar a outro quadro. Se há na obra de Hopper um símbolo da mestria do lidar com o tempo, de deixar que num momento fixo ele continue a fluir na nossa mente, então esse símbolo será este cenário noturno, intemporal, que podemos encontrar em qualquer cidade, imerso numa qualquer noite, e do qual sempre fugimos na superficialidade da vida moderna. É um quadro sobre a solidão…uma pessoa só, de cabeça um pouco baixa, reflete…um casal parece imerso numa conversa calma, onde a análise de algo impera…não sabemos o que falam ou o que pensam, nem sequer se se encontraram apenas aqui, na partilha da sua solidão individual, ainda que a mulher apareça algo alheia e impaciente. Mas encontramos uma certa dualidade nesta solidão, porque se uma pessoa só pode eventualmente estar perdida no seu mar de pensamentos, sem um caminho ou uma saída, certo é que a solidão também pode existir num espaço de duas pessoas, dois seres que decidem na partilha caminhar sós, num mundo que naquele momento (ou em outros) não lhes interessa. Ainda que possam estar perante um dilema, exigindo reflexão, estão calmos…sabem que têm de estar ali. Sós.

Como em toda a obra de Hopper (principalmente na que retrata momentos, pessoas), é desafiante pensar em Nighthawks como um momento num tempo que passa, num espaço isolado na realidade. Na visão do momento, não é tão importante para mim pensar no “de onde estas pessoas vieram”, mas mais no “como estas pessoas chegaram”…se estariam perdidas na noite e perdidas continuavam, ou se encontraram este local depois de encontrarem a solução para os seus próprios momentos interiores, e apenas relaxam neste ponto de chegada. Posso aqui inferir todo um conjunto de exercícios psicológicos, mas, independentemente dos cenários, desperta-me a atenção de que este café noturno não tem portas de entrada. Surge-nos como uma inevitabilidade da caminhada, um ponto onde não é importante a entrada ou a saída, mas o estar, o pensar, o refletir…tanto mais importante quanto estamos perante uma rua que parece intercetar outra…uma divisão que naquele café se consubstancia não na necessidade de decidir, mas de refletir nessa decisão, o que não deixa de conferir a este quadro uma certa intemporalidade que se assume quase como uma lição do sermos humanos em tempos de desnorte moderno.

Nighthawks realmente fascina-me. Irei voltar a ele várias vezes, porque a sua vastidão não permite colocar todo o seu sentido num artigo, e porque a sua vastidão também depende muito do momento que vivemos quando o observamos, colocando esse sentido numa dimensão que tanto nos assusta: a emocional. A humana. O sermos nós, com a nossa fraqueza moderna de termos de pensar, sentir. É, de facto, um lugar comum da arte,  esta relativização do sentir, mas é isso que torna-o admiravelmente transcendente e, para mim, um dos expoentes máximos da apreciação da pintura como exercício da nossa própria humanidade.