Wild

Wild foi dos livros que mais me cativou nos últimos tempos. Não apenas por estar relacionado com a prática de hiking, mas porque tem por trás uma história real notável, que merecia de facto ser relatada. Depois de uma infância feliz, marcada pela sempre presente e influente figura materna, a perda da mesma faz com que Cheryl gradualmente siga um caminho de vida acidentado, perdendo o seu norte por entre o consumo excessivo de drogas, uma promiscuidade constante, e um casamento progressivamente caindo num vazio de significado. Sentindo-se sem saída, abrindo em si mesma um vazio cada vez mais fundo, Cheryl encontra um dia informação sobre a travessia do Pacific Crest Trail, ousando sentir que aquele poderia ser o passo para algo novo, diferente…o beco sem saída em que se encontrava apenas lhe mostrava que não tinha nada a perder por algo tentar. E assim, sem qualquer experiência de Hiking, da logística da preparação ou da atitude a ter nos trilhos, Cheryl decide-se lançar à conquista do PCT. Estendendo-se por 4260 km, desde a fronteira com o México até à fronteira com o Canadá, com variação de altitude entre o nível do mar e os 4009 m (na Sierra Nevada), o PCT atravessa toda uma variedade de tipos de terreno, cursos de água e fauna selvagem, sendo um dos mais formidáveis desafios que um Hiker pode ter. A escolha de Cheryl foi uma escolha que mesmo muitos hikers experientes (ou ditos experientes) não se atrevem a fazer…mas ela fez.E com ela acompanhamos toda uma preparação e uma viagem que, em muitas situações, são um manual do que não se deve fazer…acompanha mo-la por todo o trilho, por toda a reflexão e frustração que estas demandas sempre contêm, bem como por todo o seu processo de aprendizagem, não apenas aquela que se obtém nos momentos de solidão, em diálogo com nós mesmos, mas igualmente a obtida com as pessoas que vai encontrando e convivendo, principalmente nos pontos de descanso, onde a típica solidariedade que encontramos nos trilhos a esta nível se explana de forma natural, encontrando pessoas que tornam a sua demanda um pouco menos dura, por via de uma melhor compreensão das lições que a montanha nos oferece…tudo contribuindo para uma narrativa interessante de crescimento pessoal, ao longo de um livro escrito num estilo muito simples e direto, distante de grandes metáforas literárias ou outras aventuras de estilo. É um livro pessoal, escrito de uma forma que em muitos momentos nos faz imaginar uma muito agradável conversa com a autora.

Foi uma leitura que me despertou múltiplas emoções. As duas semanas e meia que passei em hiking nos Pirinéus (a experiência mais longa que tive até hoje), seguiram-se a um período da minha vida em que fiquei sem emprego. Não tinha experiência de caminhadas tão longas, numa montanha tão alta, e cometi alguns do erros que Cheryl também cometeu, ao mesmo tempo que vivi situações similares, que “reli” no meio de algumas lágrimas e sorrisos. E um livro que aconselho a quem neste momento caminha com dúvidas na sua esperança…é um livro sobre humildade, sobre querer muito e a força que daí nasce enquanto por vezes nos surpreende…numa sociedade em que existe uma grande hipocrisia em relação ao discurso sobre o erro, mostra-nos que não se deve ter medo de errar quando começamos a mudar algo na nossa vida. Faz parte do jogo, de um novo eu que devemos acarinhar…no meu caso, ainda hoje trago a montanha junto ao meu coração…tal como um dia disse John Muir, podemos abandonar a montanha, mas a montanha não nos abandona…em mim, mudou-me profundamente enquanto pessoa, nas lições que me ensinou. Cada um de nós encontra em si a sua mudança…ela estará no lugar e momento certos, enquanto olharmos para nós com esperança, e nela certamente existirá uma demanda de transformação. Quando começada, e como diz Cheryl no seu livro, não há outra opção se não continuar em frente.

Crédito da imagem: Knopf

Kandinsky – ensaios de dança

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Não resisti a partilhar este “Dances of Palucca”, um ensaio de Wassily Kandinsky, de 1926. É, para mim, um ensaio muito interessante dentro da escola Bauhaus, pois aplica o estudo da forma não a um qualquer artefacto ou produto (no caso de Kandinsky, a uma qualquer visão abstrata desprovida de modelos), mas à expressão do corpo humano, e do seu movimento. Mesmo aqui, as linhas orientadoras da Bauhaus estão presentes, definidas de forma básica, simples, personificada na preponderância absoluta do traço sobre qualquer expressão decorativa acessória. Da mesma forma, vemos uma geometria tão bem definida em figuras simples, quanto expressiva.

Crédito da imagem: Wassily Kandinsky

Velut Luna

Com o começo do Outono, e no decorrer no Inverno, existe um equilíbrio natural em mim. São estações que me movem num caminho de paz e recolhimento, simplesmente desfrutando o aqui, o agora, independentemente de como se consubstanciam num tempo natural e interior, em abertura ao que me proporcionam.

Num desses momentos, assisti hoje na RTP 2 a uma representação da Carmina Burana, de Orff. Gravada no Théatre Antique D’Orange, em França, a belíssima interpretação musical aliou-se a um enquadramento visual que tornou o conjunto numa das mais belas interpretações desta obra a que já assisti. Por entre o som e imagem, música e pintura, os sentidos variam por entre a vincada dualidade das energias masculina e feminina, muito própria nesta obra, despertando o sentir e a consciência de um erotismo também nela contido. Cada cor, cada nota, vibra no interior, numa essência que reconhecemos como antiga e natural.

Se não viram, e apreciam o estilo clássico, aconselho mesmo muito a irem à vossa box e sintonizarem esta emissão.  Fica igualmente aqui um portefólio de alguma da cenografia utilizada.

Crédito da imagem: COSMO AV

Brasil – segundo turno

Chegamos então ao segundo turno das eleições no Brasil. O caminho feito até aqui, desde o primeiro turno, não trouxe nada de novo em termos de estratégias, típicas de uma segunda volta. em qualquer país. Os discursos são mais fluídos nas propostas apresentadas, tentando acomodar o eleitorado “orfão” do primeiro turno, mas igualmente procurando facilitar as negociações políticas  para um congresso que se prevê dividido, uma questão particularmente importante, dada a escolha mais radical de “vices” feita por ambos os candidatos.

Bolsonaro claramente suavizou um pouco o discurso em questões governamentais, retirando certezas da nomeação de Paulo Guedes para um super-ministério da fazenda, economia e desenvolvimento (inclusive lançando dúvidas sobre a criação do mesmo). A junção da agricultura com o ambiente foi também algo em que Bolsonaro pareceu recuar, juntamente com importantes referências de manutenção no acordo de Paris e ao não encerramento da fronteira com a venezuela (ambas importantes no cenário regional e global), tudo mostrando que de facto, a época da negociação política referenciada acima estava em curso). Ao contrário, Bolsonaro manteve a rudeza e a violência no discurso sobre segurança e corrupção, mantendo o sentimento anti-PT como driver fundamental de uma retórica que mais uma vez levantou dúvidas sobre o futuro democrático do Brasil. Continuou igualmente a campanha centralizada nas redes sociais, fazendo circular todo um manancial de fake news em circuito fechado, aumentando o surrealismo de uma campanha que levou o modelo Trump a um novo e infeliz nível ( a intervenção do Facebook e do Whatsapp, para além de tardia face aos indícios que já existiam, foi escassa. Ainda assim, podemos considerá-la um fator mediano na queda de Bolsonaro nos últimos dias.

Quanto a Haddad, já se lhe antecipava o caminho das pedras. Manter o fiel eleitorado do PT enquanto se lançam pontes para uma aliança anti-Bolsonaro nunca seria um exercício fácil no Brasil, depois da forma como o PT, nos anos de governo, tratou o centro-esquerda e o “centro”. Ainda assim, Haddad conseguiu parcialmente fazer essa ponte junto do eleitorado com a ajuda do aumento de rejeição a Bolsonaro, muito baseado na reação aquele discurso “caseiro” do candidato radical; de uma intervenção ao nível de certos núcleos evangélicos que, originalmente apoiando Bolsonaro, alteraram o seu apelo de voto, e com a intervenção de praticamente toda a classe cultural brasileira, que tem intervido em peso nos dias finais da campanha. Outro dos fatores importantes foi a intervenção direta de milhares de voluntários numa estratégia de contacto direto com as pessoas, muito em contraponto com a presença na net de Bolsonaro, promovendo uma “virada”no sentido de voto. A expressão desta tática foi muito forte em S. Paulo, tendo as sondagens ilustrado uma inversão no sentido de voto na cidade. Uma inversão que, em menor escala, se tem feito sentir ao nível nacional, principalmente na última semana, gerando uma onda forte de entusiasmo num sprint final tão interessante quanto indefinido. Ciro Gomes ainda não definiu qualquer orientação pública face ao seu sentido de voto, fazendo com que os 12% de votos expressos que atingiu no primeiro turno sejam uma parte do joker que irá pairar amanhã sobre estas eleições, ao mesmo tempo que mostra que a negociação para o Congresso pode ser bem mais complexa do que a congregação do eleitorado do centro numa frente anti-Bolsonaro, muito guiada pelo medo. A outra parte serão os cerca de 16% de indecisos, cuja provável orientação é, neste momento, bastante difícil de definir.

Veremos amanhã como será orientado o sentido de voto dos brasileiros. Depois, vem aí um dia absolutamente crítico para o futuro deste novo ciclo: o 29 de Outubro de 2018.