15/10

Finalmente um pouco de tempo para escrever sobre este tema, depois de uma semana agitada. Mas para falar do Pinhal de Leiria, teria de ser com o respeito e a dignidade que ele sempre mereceu. Uma dignidade que literalmente vai florescendo em várias zonas, e que só tenho pena de não corresponder a uma dimensão humana.

Nas minhas férias de verão, fui, como sempre, várias vezes à Praia da Vieira. Gosto de seguir pela estrada que sai da Marinha Grande e deixar o carro rolar por um cenário que, antes do incêndio, era magnífico…as casas ficavam para trás e entrávamos no domínio do verde, com muitas estradas secundárias cruzando a via principal, e a convidar para locais maravilhosos. O carro conhece o caminho…quase que se sentia um qualquer piloto automático a simplesmente levar-me…de manhã era frequente estar imersa em neblina, adensando uma aura de mistério que nos levava para um mundo diferente, em paz, com a respiração mais lenta…mas, fosse imerso na neblina, fosse banhado pela luz do sol, era uma estrada inspiradora, amiga, que com a estrada mágica entre S. Pedro e a Vieira, preenchiam-me…toda aquela zona continua um hino à vida, de uma forma diferente…um hino sobre como a beleza se ergue alta no mundo do natural, após a tragédia da sua destruição. Na generalidade to terreno, este vai ganhando mais cor, ainda mais do que da última vez que por lá havia passado…notava nas minhas viagens deste verão que o colorido das flores campestres misturava-se com os fetos…terminado por agora o primado do verde, um pequeno arco-íris nascia mais junto ao chão, ainda dorido. E em algumas zonas, já se ouviam pássaros…fiquei com muita fé no futuro no nosso (de todos) Pinhal de Leiria.

A tempestade Leslie deitou muitas árvores ao chão…das que não foram cortadas, algumas não resistiram ao vento forte, e a algumas rajadas fortíssimas que ocasionalmente naquela noite emergiam. Mas muitas ficaram…de pé…algumas mostrando sinais de vida que nasce dos seus restos…ao contrário dos homens que as mataram, ao contrário dos homens que pouco ou nada fizeram desde o incêndio, tirando o amor das crianças que por vezes vão plantar as suas pequenas árvores…ao contrário dos homens que as abandonaram sem dignidade na fúnebre memória dos séculos, após gerações sucessivas que no ajudaram a fazer de nós algo mais enquanto povo…ao contrário de tudo isso elas continuam de pé…porque as árvores morrem de pé.

Crédito da imagem: José Luís Jorge/Jornal de Leiria

VOST – os filhos de Leslie

Uma das polémicas levantadas com a tempestade Leslie foi a falta de informação por parte da Proteção Civil, especialmente nas zonas que se previam mais afetadas. Em Leiria, nem eu, nem pessoas que conheço receberam algum tipo de SMS indicador da situação e, pelo que tenho ouvido, apenas Lisboa viu surgirem SMS…via EMEL. A juntar a esta situação, relatos têm existido de pessoas que realmente receberam um SMS de aviso mas apenas…24 horas depois. Por outro lado, foi notório o apagão nas redes sociais. Milhares de pessoas esperaram por informação da Proteção Civil nestes canais, mas esta foi inexistente no Twitter e, no Facebook, resumiu-se a pouco mais que nada.

As justificações para o referido acima espantaram-me um pouco, não apenas pela revelação de falta de capacidade, mas igualmente de organização e eficiência. Dizer-se que não se enviaram alertas localizados porque não era possível conhecer com exatidão a trajetória da tempestade, é, na prática, colocar uma muito injusta mancha sobre o bom trabalho que o IPMA realizou. As trajetórias associadas a estas tempestades são muito complexas de calcular, dada a complexidade e extensão dos fenómenos, para não falar da (ainda) raridade dos mesmos, não completamente tipificadas na modelação matemática. Ainda assim, o IPMA conseguiu ir reduzindo a área com mais probabilidade de eventos graves, num trabalho que ia sendo divulgado via comunicados. O que me pareceu contudo, foi que este trabalho não teve um seguimento apropriado pela Proteção Civil que, apesar dos apelos das pessoas nas redes (no Twitter eram constantes), não se fez ouvir em meios que, hoje em dia, são plataformas massivas para comunicação deste tipo, em tempo real, revelando um preocupante autismo ou inépcia face à realidade. Seria talvez de refletir sobre a criação, para este tipo de eventos climáticos (e suas consequências), de um hub comunicacional, albergando o IPMA e a Proteção Civil, para que a informação seja sincronizada e se torne mais rigorosa, concisa e abrangente. Não seria também dispiciente considerar a participação da agência LUSA neste hub, integrando a realidade multi-plataforma destas três entidades (e de outras que fosse conveniente juntar), para maior eficiência da comunicação. Por outro lado, é preciso redefinir a forma como os SMS’s são transmitidos, talvez promovendo maior aproximação com as operadoras de serviço móvel. Por outro lado, e porque alguns disseram, inclusive na própria televisão, que tais avisos poderiam constituir uma situação de alarme social injustificado, apetece-me apenas dizer que tal alarme por vezes surge pela falta de compreensão da mensagem transmitida, mas muito mais surge quando essa mensagem simplesmente não existe…e aqui também cabem algumas perguntas sobre a falta de informação que existiu às populações nos próprios locais, algo que está a ser muito falado na Figueira da Foz.

No meio de tudo isto, surgiu a @VOST , uma página no Twitter, feita por voluntários, que fez um trabalho absolutamente excecional na disseminação de informação clara, concisa, e importante, recolhendo-a criteriosamente de várias fontes e transmitindo-a de forma clara e eficiente, algo que inclusive chamou a atenção de alguns canais de notícias, que igualmente começaram a passar a informação desta iniciativa. Um grupo de voluntários…4 voluntários…estabeleceu uma base no Twitter que se consubstanciou não apenas no emergir de um serviço cívico, de cidadania, mas igualmente, pela dinâmica que foram imprimindo durante a noite, induziram um extraordinário movimento cívico na rede, criando rapidamente confiança e tornando-se um agregador das informações e pedidos de auxílio que iam chegando um pouco de todo o lado. Foi um trabalho notável, e que verdadeiramente merece ser aqui destacado.

Talvez afinal a Tempestade Leslie não tenha deixado apenas coisas negativas junto de nós…que o positivo que nos deixou possa germinar, e mais uma prova de cidadania que Portugal tanto precisa.

Crédito da imagem: VOST Portugal

Lifestyle – Minimalismo

O Minimalismo é hoje uma das tendências mais afirmadas em termos de vivência, ou de desenvolvimento pessoal.  Mas se existe toda uma miríade de obras e opiniões sobre a sua vertente mais prática, nomeadamente em termos de uma afirmação mais material desse minimalismo, poucos existem sobre o porquê de esta corrente de pensamento e de vida se desenvolver de forma tão rápida na sociedade moderna. Neste podcast deixo algumas notas exatamente sobre esta última parte da questão, um pouco baseado na minha experiência pessoal, que efetivamente pode não ser a da pessoa que ouve, mas que ainda assim pode contribuir para, quem sabe, alguém se ouvir um pouco mais a si mesmo.

Espero que apreciem, e, claro, todos os comentários são bem-vindos.

Desvio 45

O aproximar de uma tempestade é sempre uma boa razão para se voltar às curtas do Indie. Deste vez, mais um exemplo de bom cinema português, do já longínquo ano de 2002. Escrito, realizado e produzido por António Borges Correia, Desvio 45 é uma história de distorção temporal muito bem escrita e realizada…enquanto um casal de idosos simula uma viagem, num carro parado algures num descampado (onde outros idosos vão jogando voleibol), um casal jovem inicia a sua viagem de lua de mel. As ações de um casal são o espelho das ações do outro, uma técnica que poderia ser considerada cliché, mas que aqui surge com qualidade, não nos passando pela mente de que já a vimos em bastantes filmes…chegados a um desvio, o casal jovem entra por uma estrada secundária que os leva a ficarem perdidos, sem combustível, o que os leva a caminhar por entre o descampado, encontrando o seu futuro, no casal idoso que simula a viagem num carro que, na sua mala, tem um reservatório de gasolina, que permite ao casal mais novo seguir a sua viagem.

Essencialmente é um trabalho muito bem escrito, com uma boa realização. Com a música de João Gil a dar um toque muito positivo à criação de uma atmosfera de intemporalidade que marca todo o filme, que nos faz pensar se a idade não será apenas uma desculpa para pretendermos alargar a nossa imaturidade.

Ficha IMDB

Crédito da imagem: António Borges Correia

Leslie

Vem aí o furacão Leslie. Portugal não se encontrava normalmente na rota destes grandes fenómenos atmosféricos, mas as alterações climáticas vão-nos trazendo novidades a um ritmo bem maior do que aquele dedicado a refletir sobre os seus impactos. Estamos situados numa das zonas de primeira linha destas alterações, com o Atlântico por um lado, e os sistemas climáticos africanos pelo outro, prometendo à nossa descendência um país bem diferente do atual, de extremos e de choques climáticos. Confesso que sou daqueles que se questionam se estamos a preparar de forma cuidada esse futuro, numa era onde as crianças são cada vez mais protegidas do próprio mundo que lhes pode ensinar tanto sobre todos nós. Em relação ao Leslie em particular, a imprevisibilidade da rota destes fenómenos torna, nesta altura, difícil a tarefa de estimar a sua trajetória, fortemente influenciada pelas depressões a Norte e pelo Anticiclone dos Açores a Sul. Mantenham-se a par das últimas informações através da página do IPMA, não esquecendo uma visita à página da Autoridade Nacional da Proteção Civil.

Uma última palavra para as pessoas que se colocam em risco para fotografar cenários relacionados com estes fenómenos…uma boa fotografia não vale um acidente grave ou potencial fatal…e mesmo que nada aconteça, o exemplo que transmitem pode ser, um dia, o motivo para alguém poder ter algum acidente. Mantenham as máquinas no saco, partilhem este tempo com um bom serão em família ou com os amigos. Celebrem a vida, que um dia nasceu das forças poderosas que lá fora agitam os elementos nestes dias.

Crédito da imagem: NASA Worldview, Earth Observing System Data and Information System (EOSDIS)/ NOAA