Quo vadis TV?

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Crédito da imagem: Miguel Baltazar

As coisas não vão bem na televisão em Portugal…desta feita, o anátema da desconfiança irrompeu ali para os lados da TVI…depois da confirmação da existência de provas periciais, que atestam a falsidade de alguns testemunhos relativos às reportagens sobre o caso das adoções fraudulentas pela IURD, surgiu agora no Twitter um vídeo com uma reação coletiva de vários pais face a uma reportagem da mesma estação, relativa a alegadas intimidades entre crianças de 3 e 4 anos, numa escola de Lisboa. No vídeo percebe-se de forma clara que o sentimento geral é de defesa da escola. Poderá eventualmente dar-se o benefício da dúvida, embora estejamos a falar de algumas dezenas de pais numa posição coletiva…ou estamos perante um grau de negligência que extravasa a escola, ou realmente poderá existir aqui mais uma polémica.

Existe uma razão para colocar esta fotografia, “televisionamente” inócua. É que, na minha visão, estamos perante um problema transversal, centrado na forma como as televisões inundam diariamente o quotidiano com o lado prático de estratégias centradas sensacionalismo, orientadas por um círculo vicioso entre conquista de share, para obter mais receitas de publicidade, que resultem em mais share. Pelo meio, esta dinâmica alimenta uma cultura baseada na aparência e no ilusório, cativando as pessoas numa sociedade como a portuguesa, onde os sonhos e as esperanças andam por vezes ao nível dos passeios… acresce a este facto que esta é uma estratégia que tem as redes sociais como um dos seus pilares, numa conjunção que não foi de toda feita no céu, como se constata pelo ambiente muito pouco celestial que tudo isto gera, numa base diária.

E nesta vertigem entra a realidade social. Não apenas os programas que analisam estes casos foram alterando o seu modelo na direção do sensacionalismo emocional, como se tornaram por vezes variados nos modelos, podendo assumir a figura de segmentos em programas maiores, eles próprios representativos dessa matriz sensacionalista e superficial. Certo é que há uma ou duas dezenas de anos atrás, estes casos tinham menos visibilidade. Mas existe uma aura de leviandade nesta evolução…a maior visibilidade traz consigo maiores impactos sociais, maior efeito sobre as pessoas, daí decorrendo reações mais instintivas, fruto de uma sociedade que fomenta muitas vezes a frustração em base diária…cada vez mais é importante ganhar a consciência destes impactos na comunidade, e das dinâmicas que a longo prazo podem eclodir…é algo ausente da maioria dos atores políticos da nossa sociedade, bem como de uma massificação da péssima qualidade da gestão de pessoas na maioria das organizações, e por isso contar-se-ia com os jornalistas para assumirem esse papel, dada a ainda provecta ideia da liberdade de pensamento, de maturidade na escrita e na análise do que nos rodeia.

Em qualquer estação de televisão (ou até mesmo na imprensa escrita ou na rádio, que se podem trazer para este debate), estes programas ou reportagens de investigação são fundamentais para instituírem um equilíbrio no ruído dos dias acima descrito. Devem ser rigorosos na investigação, profundos na análise, pragmáticos nas conclusões, diretos na sua apreciação, e maduros no debate que promovem. Deveriam assim ter uma orientação a um nível mais sénior, com profissionais de reconhecida qualidade nas necessidades acima citadas, ao longo de uma carreira que pode ser mais longa ou mais curta. É certo que, na minha opinião, grandes e lendários nomes do jornalismo português fazem falta em trabalho ativo, mas, por outro lado, a senioridade hoje em dia é atingida mais cedo, e mais cedo pode ser potenciada. Portugal sofre já há muitos anos, de “comentarite” frequente e aguda (com algumas honrosas mas poucas exceções), imersa num mar estagnado de mediocridade, que nada mais faz do que muitas vezes ainda incrementar mais os fogos nas redes sociais onde essas pessoas são membros ativos. E tem falta de uma profunda reflexão baseada em factos e ideias concretas sobre causas e efeitos de uma sociedade cada vez mais triste e revoltada, tal morta-viva numa qualquer arena romana.

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