VOST – os filhos de Leslie

Uma das polémicas levantadas com a tempestade Leslie foi a falta de informação por parte da Proteção Civil, especialmente nas zonas que se previam mais afetadas. Em Leiria, nem eu, nem pessoas que conheço receberam algum tipo de SMS indicador da situação e, pelo que tenho ouvido, apenas Lisboa viu surgirem SMS…via EMEL. A juntar a esta situação, relatos têm existido de pessoas que realmente receberam um SMS de aviso mas apenas…24 horas depois. Por outro lado, foi notório o apagão nas redes sociais. Milhares de pessoas esperaram por informação da Proteção Civil nestes canais, mas esta foi inexistente no Twitter e, no Facebook, resumiu-se a pouco mais que nada.

A

justificações para o referido acima espantaram-me um pouco, não apenas pela revelação de falta de capacidade, mas igualmente de organização e eficiência. Dizer-se que não se enviaram alertas localizados porque não era possível conhecer com exatidão a trajetória da tempestade, é, na prática, colocar uma muito injusta mancha sobre o bom trabalho que o IPMA realizou. As trajetórias associadas a estas tempestades são muito complexas de calcular, dada a complexidade e extensão dos fenómenos, para não falar da (ainda) raridade dos mesmos, não completamente tipificadas na modelação matemática. Ainda assim, o IPMA conseguiu ir reduzindo a área com mais probabilidade de eventos graves, num trabalho que ia sendo divulgado via comunicados. O que me pareceu contudo, foi que este trabalho não teve um seguimento apropriado pela Proteção Civil que, apesar dos apelos das pessoas nas redes (no Twitter eram constantes), não se fez ouvir em meios que, hoje em dia, são plataformas massivas para comunicação deste tipo, em tempo real, revelando um preocupante autismo ou inépcia face à realidade. Seria talvez de refletir sobre a criação, para este tipo de eventos climáticos (e suas consequências), de um hub comunicacional, albergando o IPMA e a Proteção Civil, para que a informação seja sincronizada e se torne mais rigorosa, concisa e abrangente. Não seria também dispiciente considerar a participação da agência LUSA neste hub, integrando a realidade multi-plataforma destas três entidades (e de outras que fosse conveniente juntar), para maior eficiência da comunicação. Por outro lado, é preciso redefinir a forma como os SMS’s são transmitidos, talvez promovendo maior aproximação com as operadoras de serviço móvel. Por outro lado, e porque alguns disseram, inclusive na própria televisão, que tais avisos poderiam constituir uma situação de alarme social injustificado, apetece-me apenas dizer que tal alarme por vezes surge pela falta de compreensão da mensagem transmitida, mas muito mais surge quando essa mensagem simplesmente não existe…e aqui também cabem algumas perguntas sobre a falta de informação que existiu às populações nos próprios locais, algo que está a ser muito falado na Figueira da Foz.

No meio de tudo isto, surgiu a @VOST , uma página no Twitter, feita por voluntários, que fez um trabalho absolutamente excecional na disseminação de informação clara, concisa, e importante, recolhendo-a criteriosamente de várias fontes e transmitindo-a de forma clara e eficiente, algo que inclusive chamou a atenção de alguns canais de notícias, que igualmente começaram a passar a informação desta iniciativa. Um grupo de voluntários…4 voluntários…estabeleceu uma base no Twitter que se consubstanciou não apenas no emergir de um serviço cívico, de cidadania, mas igualmente, pela dinâmica que foram imprimindo durante a noite, induziram um extraordinário movimento cívico na rede, criando rapidamente confiança e tornando-se um agregador das informações e pedidos de auxílio que iam chegando um pouco de todo o lado. Foi um trabalho notável, e que verdadeiramente merece ser aqui destacado.

Talvez afinal a Tempestade Leslie não tenha deixado apenas coisas negativas junto de nós…que o positivo que nos deixou possa germinar, e mais uma prova de cidadania que Portugal tanto precisa.

Crédito da imagem: VOST Portugal