Porto Covo intimista

O post número 100 do blog não poderia ser melhor, produto de uma viagem idealizada antes de ontem, e realizada no dia de ontem. Existe um feeling especial nas ideias que simplesmente surgem e se executam “na hora”…sejam horizontes que se revelam, ou desafios que ousamos ultrapassar, a alma suspira de alívio, voltando a respirar pela mera quebra das rotinas do dia. Decidi rumar a sul, passando pela Comporta (que não conhecia) e continuar até um lugar onde fui muito feliz, na energia das férias de adolescência, fosse qual fosse a forma como se expressava, da diversão imensa, até ao descobrir da essência do meu Ser.

I

ndependentemente do ângulo em que aborde esse tempo, foi um período intenso, do qual guardo muito em mim, estruturado na forma como me tornei homem. Por isso chegar a Porto Covo foi bom. Foi mesmo muito bom. Tinha algum receio que o urbanismo desenfreado de que ouvia alguns falar tivesse consequências bem mais nefastas do que o que vi. O núcleo central da povoação está na mesma, não tendo visto construção em altura no seu interior, ou na sua vizinhança  imediata, num conjunto que me pareceu harmonioso, à luz de um dia muito bonito e de mar imensamente azul,  convidando a ser desfrutado. E por isso fui para a Praia Grande aproveitar bem o sol matinal que aqui a zona centro ainda não vai permitindo (as manhãs marítimas são sempre muito enevoadas). Não sendo saudosista, confesso que no tempo que ali passei e caminhei, desde o porto de pesca ao parque de campismo mais antigo na entrada da povoação (existe um mais recente na Praia Grande), passando pelo sentir do sol na praia, as memórias surgiram naturalmente, em alguns casos fazendo-me sorrir e, em todos, fazendo-me pensar, encaixando-se na reflexão mais vasta que vou fazendo sobre a minha caminhada…o passado de um tempo mais simples não apenas não desaparece, como faz o presente representar-se perante nós numa perspetiva mais vasta…essa simplicidade é também parte de uma forma mais liberta de ver a vida que não se deve perder na nossa caminhada, mas reforçar-se com a aprendizagem obtida, mantendo a felicidade como objetivo principal da mesma, para lá do deambular num percurso circular de rotinas…

Fui para Vila Nova de Milfontes um pouco mais vivo, um pouco mais eu e um pouco mais em paz, deixando-me boiar num mar sem ondas, sobre o mesmo sol que me recebeu em Porto Covo, deixando o tempo simplesmente passar. À minha espera ainda tinha a viagem de regresso a Leiria, também para ser desfrutada como todas as viagens, em todos os tempos. Mas agora o presente estava ali, no meio de águas calmas e do silêncio que envolvia todo aquele cenário…tempo abandonado em seu tempo, abrindo as portas da perceção ao que na busca de mim encontrei durante o dia retirei durante o dia.

Tudo tem o seu tempo…não se adianta nem atrasa a paz…apenas se encontra, vive-se e, caso assim seja a nossa escolha, integramos em nós.

Crédito da imagem: Paulo Heleno