Feminismo on sale

Surgiu-me hoje um tweet sobre formações de feminismo, orientadas por uma conhecida figura do panorama audiovisual português. E confesso que, durante alguns momentos fiquei um pouco atónito, sem saber o que pensar…mas, recomposto, se algo me surge imediatamente é o reconhecimento do falhanço de comunicação de uma mensagem feminista que, bem vistas as coisas, tem no mundo moderno uma ligação ainda bastante vincada ao movimento original, diversificado na sua ação, que defendia os direitos a voto, contrato, educação, propriedade, entre outras lutas que ainda vão subsistindo, e que dependendo dos países, assumem dimensões de verdadeiras lutas por meros direitos humanos existenciais, inerentes à própria humanidade do Ser.

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a Índia, por exemplo, ainda se luta pela erradicação das violações em grupo, ou da discriminação das meninas pela sua sociedade de castas, que as segrega por serem apenas…meninas. Assim, se me perguntarem em termos da realidade global, eu diria que a mensagem feminista está bem viva, bem ancorada nos seus valores originais e até indo além deles, renovando-os com a realidade do tempo presente de uma forma resoluta, forte, mas saudável, e que por todo o mundo vai produzindo resultados, tendo sempre a igualdade como horizonte. Talvez não à velocidade que se deseje…mas certos caminhos, infelizmente, ainda continuam a ser feitos assim. Caminhando…mas este é o feminismo que apoio, e pelo qual luto, mesmo nesta sociedade ocidental, onde no campo das igualdades, ainda existe muito por fazer.

Mas no ocidente, há muito que esse deixou de ser o foco do discurso, entrando-se numa verdadeira guerra de sexos, muitas vezes sem quartel, levando a sociedade a um exagero, de vigiar comportamentos, a forma como as pessoas se relacionam, à luz de um comportamento que tem mais de belicista do que de construtivo. É a radicalização do discurso, que rapidamente, desde o caso Weinstein, foi largada sociedade fora (também se alimentando muito da figura misógina de Trump na Casa Branca), despoletando todo um conjunto de casos julgados publicamente antes de o serem na justiça, revelando-se em alguns casos flagrantes injustiças, enquanto que noutros, a tão desejada justiça foi feita. A “caça” continua…incluindo a caça “às bruxas”, alimentando-se do relativismo que se vai instalando no nosso mundo, por via da histeria das redes sociais e de todo um conjunto de pessoas que fazem do incêndio das ideias uma pretensão de um nascimento da luz…convinha, neste aspeto, retirar as lições do século passado sobre incendiar ideias, especialmente quando, no tempo moderno, muitas delas são concebidas em departamentos de marketing e de relações públicas, e propagados numa sociedade cada vez menos pensante e atenta ao que a rodeia, apesar da informação abundante que a inunda.

Tal como deixei escrito nas entrelinhas do meu post sobre piropos, e no meu comentário a este texto, ainda existe muito a caminhar em relação a uma certa mentalidade masculina abusiva, física e mentalmente, assim como nos costumes, que se traduz ainda, infelizmente, em muitas mulheres mortas ou vítimas de violência física e psicológica. Mas tudo isto não se pode consubstanciar numa radicalização da mensagem feminista, assente na guerra aberta e no antagonismo militante entre sexos, transformando-se num revisionismo da mensagem original. Homens e mulheres devem caminhar numa comunhão de ideias, unidos na mensagem original igualitária do feminismo, evoluindo métodos e formas de luta para que este caminho possa acontecer com o contributo de todos,  motivando homens e mulheres de vários países (incluindo os ocidentais)  a unirem-se na persecução de soluções construtivas e agregadoras, e não através de radicalizações inconsequentes, baseadas numa intelectualização e mediatização de um discurso que, felizmente, ainda vai sendo muito rejeitado…sinto isso nas mulheres que conheço, muitas das mulheres com que me cruzo nas redes sociais, e muitas mulheres que sobre isto falam nos media. E ainda bem. Devemos por os olhos nas mulheres africanas, que através de uma crescente organização, e com uma compreensão masculina lenta, mas progressivamente maior, vão construindo vitórias importantes, ou pelas mulheres da Índia, que não deixam que a violência que cai sobre elas lhes tolde a necessidade de se organizarem, e de lutarem muitas vezes de formas não violentas, pelos seus direitos, trazendo muitos homens para a sua causa.

Um, é a semente. Dois, são a plenitude.

Crédito da imagem: R7-Record