Confusões britânicas

Antes de ler este post, convido-vos a irem ao Youtube, e a colocarem nos vossos sistemas de sons a música do genérico inicial do Benny Hill. Ou melhor, eu próprio coloco. Prontos? vamos então começar.

C

hegado ontem a Heathrow, e após um cansativo controlo de passaporte (os corredores para passaportes eletrónicos estavam fechados), reparei que faltava uma pequena mala, junto das malas agrupadas em frente ao tapete, que já se encontrava parado…logo, a minha pequena mala. Pensando num cenário não muito agradável, fui ao balcão de bagagens e confirmei mesmo o pior… que a mala efetivamente tinha ficado em Lisboa. Não é propriamente o que desejamos ouvir depois de um voo que, por muito pequeno que seja, deixa sempre um cansaço em corpo e mente…e assim, após receber o procedimento do que deveria fazer, só pensava em ir para o hotel descansar. Após pedir um Uber, que normalmente recolhe as pessoas junto do terminal 3, comecei a perceber que existia um desfasamento entre mapa que me era apresentado, e a minha localização, pois encontrava-me ainda junto do terminal 2 (no mapa, a zona realmente aparece como terminal 2 e 3). Pergunta puxa resposta, sempre simpáticas (nunca tive nem tenho problemas de relacionamento no Reino Unido), e assim saí disparado para o ponto de recolha definido no terminal 3…com tudo isto, e por uma questão de um minuto ou dois, não apanhei aquele carro. Respirar fundo…consciência de que as coisas não estavam a correr bem…mas também não se podiam repetir…nova tentativa de chamada, e desta vez surgiu-me uma simpática senhora paquistanesa, com quem tive uma muito agradável conversa durante a viagem que fizemos. Londres tem este sentido de multiculturalidade único, onde sentimos um calor humano forte, oriundo da humanidade que se explana logo ali, mesmo junto de nós. Senti-me bastante descontraído no carro, enquanto íamos conversando, até finalmente chegar ao meu hotel.

Sempre acreditei que temos aquilo que damos. E talvez por isso, após contar as minhas aventuras à jovem equipe de noite da receção do hotel, tive direito a um chá bem quente, um pratinho de biscoitos, e mais uns momentos de conversa com mais uma jovem muito simpática, sobre tudo um pouco do nada que tantas vezes nos une neste mundo…é realmente bom falar com estranhos, quando a empatia surge. Existe sempre tanto para conhecer do outro para nos definirmos a nós mesmos. E mais uma vez com a alma reconfortada, subi ao meu quarto, onde pus mãos à obra no preencher das formalidades relativas ao extravio da minha mala. Depois de um muito organizado mas profundamente maçador documento da alfândega, referindo (com um tom ameaçador muito british) que a mala seria aberta na chegada, e que caso o que fosse encontrado não fosse coincidente com a informação daquele documento, problemas graves poderiam surgir, começo outro documento, que começava essencialmente por dizer que o documento anterior apenas se referia a situações com origem fora da União Europeia. Respirei fundo…é melhor continuar…e lá fui preenchendo tudo online, num formulário muito bem construído. Como na noite seguinte não iria ficar no mesmo hotel, mas estaria perto, tinha combinado com a equipe de receção que lá colocaria a morada deles. Depois passaria por lá para recolher a mala. Dito e feito. E finalmente, cerca das três da manhã, fui (tentar) dormir.

 Apesar de estar numa zona calma de Londres, o dia começa bem cedo. E assim, às seis da manhã, já andava pela rua, buscando algum espaço onde pudesse comprar artigos para fazer a minha higiene. Encontrei um supermercado pequeno, de bairro, muito bem abastecido, que me fez lembrar um pouco aqueles minimercados, quase mercearias, com aquele cheiro delicioso que ainda hoje não consigo definir, mas que ainda vou encontrando de quando em vez, curiosamente em meios mais pequenos. Paguei umas estonteantes 10 libras por um after-shave, uma pasta de dentes, um pack de três gilletes e um frasco de espuma de barbear. Não achei caro, para o que por vezes se paga em Londres por artigos fundamentais. Regressado ao hotel, fiz a barba, tomei banho, e ainda dormi um pouco, antes de me vestir para ir à minha atividade profissional. Felizmente a informalidade do meu cliente foi um trunfo neste dia.

Mas, ao longo do dia, ia por vezes pensando na minha mala. Talvez já viesse a caminho…talvez já cá estivesse…decidi ir ver qual seria o primeiro voo do dia da TAP, com destino a Heathrow (estas situações são logo corrigidas no primeiro voo do dia seguinte). E descobri que era às…19:10…nessa altura, já estaria a dirigir-me para fora de Londres, longe do hotel onde fiquei…voltei rapidamente ao site que tinha preenchido na noite anterior, e alterei a morada do hotel, para aquele onde ira estar. Mas com certeza, ainda hoje não veria a minha mala. O dia foi passando, e despedi-me do meu cliente…rapidamente, de Kentish Town fui para King’s Cross, de King’s Cross para Paddington, e de Paddington para Reading…sempre a correr, num dia onde, ainda por cima, os quadros de sinalização estavam erráticos no seu funcionamento. Mas, nesta última fase, já estava com um colega, e a conversa ia fluindo, tal como o sono que se ia instalando. Por fim, lá cheguei ao hotel onde iria ficar hoje…check-in e subida ao quarto, um bom banho, e literalmente uma queda na cama, diretamente transportado para o sono profundo durante um par de horas…lembro-me vagamente de alguém me ter ligado para o quarto, de ter respondido meio atordoado, e de ter desligado o telefone…para voltar a acordar à pouco, e convosco partilhar este dia tão movimentado.

Da mala, a esta hora, ainda nada. Talvez já tenha vindo, e talvez me seja entregue amanhã. Mas amanhã, é também dia de partir…veremos o que acontece. Agora, é mesmo tempo de ir relaxar um pouco com alguma música. Amanhã, um novo dia certamente trará um novo sol (o tempo não tem estado mau por aqui). E talvez a minha mala…vamos ver.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação.