Os barbeiros

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e tempos a tempos, tenho o grato prazer de visitar o meu barbeiro, o sr. João. Nesse dia, sentar-me na barbearia à espera é para mim um repouso, uma forma de parar, na vida e no tempo. É um local de histórias, passadas e presentes…algumas surpreendentemente futuras, assentes na experiência de vida de quem as conta, normalmente envolta numa sabedoria invulgar por estes dias. Não o estranho, pois ali ainda se vive a época do saber sem lugar. E enquanto por vezes no meio dessas histórias irrompe o futebol ou a política, em discussões por vezes quentes, eu, que não sou um saudosista, encanto-me no respirar silencioso de tempos mais simples, consubstanciados na atmosfera, nos objetos da arte, ou no pequeno relógio que marca o cenário num saudoso tic-tac e onde o sr. João se harmoniza por completo. Tenho dele a imagem que tenho de todos os barbeiros, pois em todos eles a senti…de alguém que ouve e fala com a paciência dos tempos sem tempo, estando sempre lá, sabendo que será encontrado por quem vai ao seu encontro…no seu estar, e no partilhar do mesmo com os seus clientes mais habituais, o tempo vai-se tornando mais certo, em sintonia plena com o relógio, tornando deliciosamente normais as conversas…e isso faz-me sentir vivo, por entre um corte de cabelo ou um aparar de bigode…saio sempre de lá a compreender melhor o outro…algures em Leiria, numa qualquer barbearia antiga, há uma liberdade que em mais lado nenhum existe, e que se degrada na justificação do tempo…

Os barbeiros ainda vão sendo uns dos guardiões da nossa paz. Que assim continuem.

Crédito da imagem: João Pires