Museu em chamas

O

Museu Nacional do Rio de Janeiro, um dos mais importantes da nação brasileira, reunia no seu espólio peças que se explanavam no tempo… o meteorito mais antigo encontrado no Brasil, uma biblioteca histórica de Antropologia (uma das mais completas do hemisfério sul)…o esqueleto de um dos habitantes mais antigos da América do Sul, um importante acervo indígena de particular importância para a preservação das raízes destas culturas, ou a coleção egípcia doada por D. pedro I…tudo isto (entre muitos outros materiais) fazia deste museu um símbolo histórico de uma nação que se soube construir também na cultura, a partir de uma herança que foi sabendo preservar, até se ir tornando símbolo palpável do seu lugar na América do Sul e no mundo. É uma perda incalculável, uma brecha na ilustração histórica de um país e de um povo. Infelizmente, este acontecimento é igualmente uma dolorosa fotografia da realidade presente do Brasil, à deriva num mar onde poucos já se vão encontrando, dentro de profundas dificuldades económicas (especialmente visíveis no Estado do Rio) e de uma falta de rumo que entronca num conjunto de problemas sociais, já estruturais, na nação brasileira…e nesse campo, a tragédia é ainda maior…nada como a história nos ergue, num sentimento de que o passado nada mais é do que a definição de uma estrada para o futuro, pedra a pedra, quilómetro a quilómetro.

Mas esta é uma tragédia igualmente lusófona. É certo que não ouvimos esta ideia durante o dia, até agora, porque ela também nunca foi emitida, nem pelos media, nem pelas figuras públicas…pergunto-me porquê. O porquê de se achar que a tragédia é lá longe, e não perto de todos nós na comunidade lusófona, que pela história de todos se ergueu perante o mundo num abraço comum. De nada nos vale uma comunidade de economia e palavras…essas, leva-as o vento, tal como levou os pedaços de documentos históricos que iam flutuando pelo ar quente noturno, deixando-se cair nos bairros circundantes. No edifício que ficou, e que penso será recuperado na sua estrutura, fica também o convite a meditar no nosso património comum, e de como o queremos expressar no mundo. Para bem do Brasil, para bem de todos nós.

Crédito da imagem: El País