Pedrogão ainda mais negro

Não vi ontem, em direto, a magnífica reportagem da TVI24 sobre Pedrogão Grande, pelo que estive até agora a assistir à mesma no site. As palavras faltam-me numa situação como esta…mas a provar-se o que é dito nesta reportagem, é seguramente uma das fraudes que vai mais longe em termos do completo desrespeito por tudo o que é serviço público às populações, e da completa insensibilidade face a uma das maiores tragédias que assolou o país, desrespeitando-nos a todos. Uma das coisas que me impressionou foi a postura dos entrevistados ligados à reconstrução das (cerca) de 30 casas suspeitas de serem segunda habitação, devolutas, ou utilizadas para outro fim (por via de processo de alteração de morada fiscal), e que, por entre discursos ensaiados e comportamentos demonstrativos de culpa, revelavam um desafio altivo perante a jornalista, ainda escarnecendo das acusações que são feitas por toda a população…não estamos aqui perante uma vingança política, ou de algum outro caráter societário…estamos perante toda uma população que afirma a ilegalidade destas situações, sendo bem definidas na reportagem as ligações que existiam entre os diversos níveis da administração local. Não será difícil (mas é preocupante) pensar que, conhecendo estes meios mais pequenos, e como por vezes são enfrentadas estas situações, que podemos estar perante um cenário futuro de alguma tragédia humana, sempre de lamentar. Quanto à Câmara de Pedrogão Grande, o seu Presidente comporta-se de uma forma ausente de toda esta questão, lamentavelmente mostrando ou culpabilidade, ou uma profunda negligência (assim como a sua Vice). Não há aqui sequer mais nada a ponderar que não a intervenção imediata do Ministério Público e da Inspeção Geral das Finanças, de uma forma musculada e urgente, para o apuramento total de responsabilidades.

No meio desta espiral do mais pútrido da insensibilidade humana, pessoas que perderam a sua primeira habitação, continuam sem uma solução para a sua perda…desde a senhora que está alojada numa casa arrendada, da Segurança Social, e que vai ser despejada, sem ter a sua casa devidamente pronta para habitar, até ao senhor que vive na casa de uma pessoa que “não lhe é nada”, enquanto as obras na sua casa de toda uma vida estão paradas…muitos deles idosos, e alguns deles com problemas de saúde…não posso deixar de também sinalizar as pessoas que se recusaram a alinhar no esquema da alteração das moradas fiscais, denunciando o que se estava a passar às autoridades competentes, denúncias essas que foram ignoradas, assim como os seus casos. Comove esta mistura de integridade, e de resiliência de pessoas a quem o homem parece tirar tudo aqui que com a vida construíram, num interior profundamente esquecido, e entregue ao despotismo da retórica política.

Sessenta e seis mortos, 256 feridos, 53.000 hectares de área ardida e 261 habitações afetadas depois…não entendemos nada, não crescemos nada enquanto povo. Perante este cenário, o máximo que foi feito foi o funcionar das redes da pequena e putrefacta influência local, assentes na extraordinária onda de solidariedade que se gerou, vinda de todo o país, e da qual ainda hoje, seja na sua componente monetária ou material, se geram muitas perguntas, para muito poucas respostas.

Agora vem o tempo da justiça. Que seja célere. Dado o contexto, não pode ter outra velocidade.

Crédito da imagem: Global Imagens