Praia em férias

Quando chego pelas 8:30 da manhã, já a praia se vai enchendo. Está calor, e por aquela hora parece emergir uma consciência coletiva de que ainda irá estar mais, algo que se vê por entre chapéus e famílias que debaixo deles vão experimentando a melhor posição para se protegerem do sol que já se vai fazendo presente. Vou caminhando pelo areal da parte central da praia, bravamente carregando a minha vastíssima coleção de conteúdos balneares. Uma toalha, um protetor solar, um telemóvel e um livro. Deverei dizer neste ponto que, embora vasta, não é das maiores…fico sempre reflexivo com a quantidade de coisas que as pessoas levam para a praia. Ainda mais do que os comportamentos, a quantidade de coisas avulsas e desnecessárias capta-me o olhar…mas não é um problema meu. Mesmo que pudesse ser, tenho uma real dificuldade em tentar perceber coisas que até certo ponto são comuns. Talvez pela minha visão muito particular da vida, acredito que o essencial é simplesmente isso. O essencial. E sou feliz na sabedoria que adquiro no essencial das coisas. O resto faz-me realmente muita confusão.

Mas a esta hora, já os barcos foram ao mar, e do mar já nos mostram o produto da sua faina, com a habitual multidão à sua volta. Para ser sincero, talvez seja o momento mais genuíno do dia…tenho um particular fascínio pela arte xávega e pelas suas gentes, que me ficou de criança e jovem, das imagens impressionantes de barcos a remos a entrar no mar, apenas com a força de braços de homens no seu interior e exterior, e uma estrutura de troncos cilíndricos. Na memória consigo igualmente encontrar as imagens das inúmeras vezes que em inúmeros verões ajudei a puxar as redes, naquele que era um trabalho de equipe entre pescadores e veraneantes. Aprendi muito sobre o mar nessa fase da minha vida, aumentando o meu fascínio por ele. Hoje em dia, os barcos já possuem motor, são assistidos na entrada para o mar por tratores, que depois puxam as redes. Ainda assim, cada barco continua a ser um ponto de encontro entre pais e filhos, e um ponto de união geracional onde algo ainda se pode aprender num certo sentido de comunhão com a natureza, pela natureza, e da interação que temos com ela. E estes momentos são cada vez mais fulcrais no nosso destino.

Mas vai sendo altura de partir. Desta vez a nortada não me empurra, e um invulgar vento de sul, mais quente, vai inundando a praia. Por entre os meus passos, numa caminhada díficil por entre uma beira-mar muito cavada e uma areia fina que torna tudo um pouco mais cansativo, ela vai ficando mais vazia, mais calma, bailando no vento aquele peculiar concerto energético entre o mar e terra, onde apenas as gaivotas bailam…hoje estão mais em terra, em bandos bastante numerosos, indicando alguma tempestade pelo mar alto. Vou caminhando até esta bandeira… Lentamente ela vai ficando maior, sinalizando uma nova meta para uma nova partida, onde as pegadas e as marcas se vão esbatendo no areal, até desaparecerem no horizonte.

Também eu irei desaparecer neste pedaço de manhã. Pois chegado a este lugar, sou apenas mais um ser vivo, peregrino da criação que me ergue na imensidão da paz. Cheguei a casa. É altura de continuar.

Crédito da imagem: Paulo Heleno