Taurautarquias

Li há alguns dias que a Azambuja prepara-se para candidatar a tourada a património mundial. Confesso que não sou apreciador de touradas, pelos motivos que são normalmente utilizados, desde a crueldade para com o animal até ao anacronismo desta tradição em tempos modernos. E, para ser ainda mais franco, tenho muita dificuldade em compreender aquelas largadas que muitas vezes se realizam em festas populares…nestes casos, não acho que exista algum tipo de anacronismo de tradição…nos tempos modernos, cada vez mais as pessoas apreciam as emoções fortes, a adrenalina de desafiar um perigo em condições mais ou menos controladas…assim, rapidamente estes acontecimentos tornam-se bem modernos, cativando, em muitos casos, um número esmagador de pessoas de gerações mais novas…porque o fazem colocando-se à frente de um touro é algo que realmente me escapa. Na era tecnológica em que vivemos, quem sabe o anacronismo não resulte daí.

Mas, voltando às touradas, a crueldade levada a cabo para com o animal é em si mesma, não apenas um anacronismo de tradição, mas igualmente de existência. Talvez o nómada que ainda existe em nós ainda vibre com a tortura planeada e coordenada do touro na arena, em vislumbres instintivos dos tempos em que caminhávamos pela Terra, defendendo-nos do ataque de animais selvagens…mas nesse anacronismo da existência cabe igualmente alguma hipocrisia do respeito pelo outro e pela vida, num falso sentimento de humanização que nos mata a todos, ao redor de uma arena, aos olhos de um animal que apenas reage ao sofrimento que lhe é infligido, por vezes de forma particularmente cobarde…levar tal espetáculo cínico ao panteão do património mundial nada mais é do que celebrar o status quo do passado, da mesma forma como ignoramos um planeta que chama por nós, convidando-nos a uma nova vida que nos escapa por entre os dedos da realidade. Saber que o tempo muda, e com ele muda o homem nos trilhos da sua história, libertando-nos do passado para os horizontes dessa mesma liberdade será, mais que um património cultural, o património do nosso futuro.

Crédito da imagem: Plataforma nacional para a abolição das touradas