Remate ao lado

Esta foi, definitivamente, uma semana dedicada ao futebol. Desesperadamente dedicada. Por entre os dias foram desfilando as buscas, as suspeições, os programas de comentário vazio ou as colunas de opinião ausente, no perpetuar de uma oportunidade…por entre a imagem e a fama daqueles que são o poder instituído neste desporto, surgem aqueles que também nesse desporto observam o timing da oportunidade de se instituírem, de se mostrarem como a imagem de um novo poder (e associada influência emergentes) por entre a oportunidade criada pela expressão das massas de que algo pode, e deve mudar no futebol.

Não sou apreciador de futebol. Já fui, já vibrei, já sofri…mas a partir de uma certa fase da minha vida decidi colocar de lado (num processo ainda contínuo no tempo presente) o que de acessório nela residia como uma falsa sensação de conforto…pertencer a um clube, a uma tribo, a um conjunto de pessoas com desejos e ambições comuns, faz nascer nas pessoas uma sensação de conforto, de objetivos a perseguir sem serem por eles quase semanalmente cobrados. Assim como o saudosismo encanta e, provisoriamente, liberta das rotinas diárias que nos envolvem numa dinâmica circular de vida, também estes fenómenos de carácter mais tribal, evocando tempos onde a humanidade por instinto procurava vislumbrar caminhos de sobrevivência, inferem sentimentos de união primária, direta, intensa, de uma luta por algo ou alguém, ambos muitas vezes ausentes da vida diária, muitas vezes imersos num conjunto de triunfos e derrotas que se sucedem a um ritmo mais rápido do que se pode tolerar…

Consubstanciado em centenas de anos de evolução, onde muitas vezes foi encarado com um ambiente de refúgio à parte das dinâmicas da história, o futebol foi cultivando ele próprio o seu lugar à parte na sociedade, criando um poder social e económico cada vez maior, que se foi transpondo para o poder político e, muitas vezes, para o poder judicial (já não falando no albergar sobre o seu seio de grupos e situações de legalidade muito questionável), sendo que todo este fenómeno é circularmente, e de forma consentida, alimentado e ampliado por novas realidades emergentes de cada era, que perpetuam este movimento. Tudo tolerado pela crescente necessidade popular de sustentar este poder a que verdadeiramente não pertence, mas que sem dúvida o mantém. A saudável irracionalidade vivida dentro de um estádio de futebol passa para fora dele, prolongando-se para dentro da semana, sentindo-se seja no ambiente familiar, profissional ou social, nunca deixando de estar ausente nos tempos de repouso e convívio familiar ou social, nas conversas com os colegas, no tempo que passamos no trânsito…tudo alimentado por uma dinâmica comunicacional agressiva e por vezes hipócrita, principalmente no que toca ás televisões, que associam o mea culpa do seu papel em termos deste cenário à alimentação do mesmo. Não nos esquecemos, no meio de todo este redemoinho, no papel que o futebol tem na formação dos nossos jovens, sejam eles atletas ou adeptos, e da forma como estes absorvem toda esta cultura de emergência e manipulação do poder por um lado, e de arbitrariedade dos relacionamentos no outro.

No meio de tudo isto, perde-se o que de bom existe no futebol…a tal “irracionalidade de estádio”, o convívio salutar entre pessoas que, embora “rivais”, partilham o prazer de argumentar e de descomprimir da pressão dos dias, o envolvimento da família…seria na perceção do que se perde em termos do que de bom existe no futebol, que deveria preocupar os adeptos, não apenas do Sport Lisboa e Benfica, Sporting Clube de Portugal, Futebol Clube do Porto ou qualquer grande clube por esse mundo fora; mas igualmente os adeptos dos pequenos clubes…são eles, juntamente com os jogadores, os treinadores e suas equipes, que verdadeiramente movem toda esta indústria que outros tentam levar ao limiar da loucura, afastando-a dessa sua base mais estrutural, ao mesmo tempo que a cativa numa dimensão irracional.

Crédito da Imagem: Sporting News