Falcões

Quando vi Nigthawks pela primeira vez, demorei algum tempo para passar a outro quadro. Se há na obra de Hopper um símbolo da mestria do lidar com o tempo, de deixar que num momento fixo ele continue a fluir na nossa mente, então esse símbolo será este cenário noturno, intemporal, que podemos encontrar em qualquer cidade, imerso numa qualquer noite, e do qual sempre fugimos na superficialidade da vida moderna. É um quadro sobre a solidão…uma pessoa só, de cabeça um pouco baixa, reflete…um casal parece imerso numa conversa calma, onde a análise de algo impera…não sabemos o que falam ou o que pensam, nem sequer se se encontraram apenas aqui, na partilha da sua solidão individual, ainda que a mulher apareça algo alheia e impaciente. Mas encontramos uma certa dualidade nesta solidão, porque se uma pessoa só pode eventualmente estar perdida no seu mar de pensamentos, sem um caminho ou uma saída, certo é que a solidão também pode existir num espaço de duas pessoas, dois seres que decidem na partilha caminhar sós, num mundo que naquele momento (ou em outros) não lhes interessa. Ainda que possam estar perante um dilema, exigindo reflexão, estão calmos…sabem que têm de estar ali. Sós.

Como em toda a obra de Hopper (principalmente na que retrata momentos, pessoas), é desafiante pensar em Nighthawks como um momento num tempo que passa, num espaço isolado na realidade. Na visão do momento, não é tão importante para mim pensar no “de onde estas pessoas vieram”, mas mais no “como estas pessoas chegaram”…se estariam perdidas na noite e perdidas continuavam, ou se encontraram este local depois de encontrarem a solução para os seus próprios momentos interiores, e apenas relaxam neste ponto de chegada. Posso aqui inferir todo um conjunto de exercícios psicológicos, mas, independentemente dos cenários, desperta-me a atenção de que este café noturno não tem portas de entrada. Surge-nos como uma inevitabilidade da caminhada, um ponto onde não é importante a entrada ou a saída, mas o estar, o pensar, o refletir…tanto mais importante quanto estamos perante uma rua que parece intercetar outra…uma divisão que naquele café se consubstancia não na necessidade de decidir, mas de refletir nessa decisão, o que não deixa de conferir a este quadro uma certa intemporalidade que se assume quase como uma lição do sermos humanos em tempos de desnorte moderno.

Nighthawks realmente fascina-me. Irei voltar a ele várias vezes, porque a sua vastidão não permite colocar todo o seu sentido num artigo, e porque a sua vastidão também depende muito do momento que vivemos quando o observamos, colocando esse sentido numa dimensão que tanto nos assusta: a emocional. A humana. O sermos nós, com a nossa fraqueza moderna de termos de pensar, sentir. É, de facto, um lugar comum da arte,  esta relativização do sentir, mas é isso que torna-o admiravelmente transcendente e, para mim, um dos expoentes máximos da apreciação da pintura como exercício da nossa própria humanidade.

Crédito da imagem: Edward Hopper