Ericeira revival

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Crédito: Paulo Heleno

Ribeira D’Ilhas é um local especial para mim. É daqui que parte, e é aqui que termina, o trail da Ericeira, que fazia todos os anos. Era a última prova do ano (realizada em Dezembro), onde a esmagadora maioria do pelotão do TCC se encontrava para um convívio saudável em prova, conjuntamente com todos os outros participantes que acorriam ao evento. A prova era sempre realizada em Dezembro, e normalmente chegava à praia ainda de madrugada, onde me esperava um vento muito frio, de que gostava particularmente.  E, como prova, não era difícil…rolante, agradável no cruzar de uma paisagem de cores muito bem definidas pelo frio de inverno que se exprimia em dias claros e luminosos, e com uma parte final muito bonita por toda a costa da zona da Ericeira, culminando na escadaria final e na meta, instalada no surf restaurant que lá existe.

Hoje voltei lá, e senti alguma nostalgia…foi o segundo trail que fiz fora de Leiria, depois da experiência de Sintra, e foi o primeiro trail onde vivi de uma forma mais individual (nessa edição), a solidariedade e o calor humano dessas provas, ao ajudar um companheiro, com cãibras em ambas as pernas…durante o tempo que corri (cerca de 5 anos), ajudei alguns companheiros, e alguns companheiros me ajudaram, com algumas situações de ambos os casos a marcarem-me do ponto de vista humano, e que ainda hoje recordo com uma não disfarçada emoção…não sou pessoa de esconder as lágrimas…não faz sentido esconder o que faz parte de nós, e o que de nós diz tanto…

Não me arrependi nunca de deixar de correr. A harmonia que vivi com a montanha, nos Pirenéus, foi de uma amplitude tal, que o Trail Running deixou de fazer sentido na minha vida…a montanha ainda hoje reside em mim numa essência muito diferente, na paz mais ampla que essa harmonia me faz sentir…a ela desejo voltar (vamos ver se será este ano). Mas não esqueço os bons momentos que vivi no trail, especialmente quando assumi o corte com as provas leirienses, e fui em busca de pessoas, experiências e lugares diferentes, que me ensinassem algo mais fora das rotinas instaladas…todos encontrei, e com todos cresci um pouco mais enquanto homem.

E por isso hoje, juntamente com a nostalgia que era embalada por um belíssimo dia de sol, senti igualmente uma profunda gratidão.

Travelling with Miles

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Crédito: Desconhecido. Solicito informação.

Sempre que viajo, gosto de ouvir Miles. O contacto com cenários novos, ou que apenas visito de vez em quando, convida-me a ouvir música, pois com ela consigo-os viver de uma forma mais interior, reverberando em mim de diversas formas. Mais calmos e rurais, ou mais intensos e urbanos, a música ajuda-me a interiorizar a energia do que vejo, relativizando o tempo enquanto me desloco por esses locais.

O som de Miles é extraordinariamente ambiental. Nos seus ritmos mais enérgicos consigo sentir, por exemplo, o pulsar do ritmo de um aeroporto, enquanto que nos seus ritmos mais lentos, consigo transportar para o meu interior o sentir de um avião a sobrevoar o mar, o que nos dá a sensação de estarmos virtualmente parados no ar. Gosto de o considerar como um som verdadeiramente orgânico, que se desloca connosco, e que parece ter as suas raízes nas suas próprias vivências enquanto homem, desde as lutas dos direitos cívicos, onde o seu pai teve um papel importante, e onde Miles absorveu a atmosfera de uns EUA em mudança abrupta que também o atingiu (perdeu vários concursos musicais na sua juventude para colegas brancos); até à contemplação em si mesmo da sua personalidade, da sua própria sensibilidade, procurando algumas vezes a paz por entre a tempestade.

Talvez por isso, e pela forma como evoluiu dentro desse contexto de época, indo sempre mais longe na exploração do seu inigualável talento, o seu som seja tão real em termos da ilustração do que observamos em nosso redor. Se é verdade que os tempos mudam, também é certo que eles podem ser captados em toda a sua essência através da arte, tornando-se intemporais na medida da sua própria intensidade intrínseca, e da profundidade com que esses momentos são vividos e sentidos, colocando-nos perante a contemplação intemporal da nossa própria humanidade.

A luz do voltar

Esta semana já a passei por completo em Portugal. É o início de um período em que tenciono passar mais tempo por terras lusas, e que se deverá estender até ao final do verão. Mas se a semana foi ainda de trabalho intenso, ao ritmo e à pressão inglesas, nos fins de semana consigo fechar os olhos e respirar um pouco do meu viver…tenho aproveitado para sair de Leiria, passear, conduzir, sentir sítios com uma harmonia especial, pela forma como a sua energia me preenche…talvez relacionado com isso, tenho instintivamente voltado um pouco à fotografia, nomeadamente através do Instagram (pode ter muitos defeitos mas é uma ferramenta muito prática). Os resultados podem ser vistos por lá, mas, para ser franco, começo a sentir um desejo de pegar nas minhas “meninas”, não apenas na digital, mas também nas minhas duas analógicas.

Sempre disse que existe uma espécie de “estar fotográfico” ou de “sentir fotográfico”…o tempo passa mais lento, e o olhar torna-se mais fundo, como que me segredando na alma aquilo que vejo, num ambiente de silêncio em mim que me acalma o caminhar…as fotografias surgem naturalmente ainda antes de erguer a máquina, e para ser franco, não me preocupo com regras, porque simplesmente não me interessa seguir regras na fotografia…são apenas uma perda de tempo e de desfocar a essência do meu sentir, para além de que são, acima de tudo, expressões formais de relações de sentir naturais com o meio, na expressão da beleza ou do desagrado com que um cenário ou mesmo uma pessoa se afigura perante nós, seja numa expressão física, de como o nosso cérebro reage a certo tipo de padrões, seja mesmo num plano mais profundo, mental e espiritual…fotografar tem muito mais a ver com sentir do que com pensar.

Também por isso, fotografar nestes dias, ainda que com o Instagram, tem sido basicamente uma catarse, uma libertação intensa das regras da semana, e que se junta ao sentimento de que este ano de 2019 será um ano de transição. Estando mais por cá, também a escrita e os podcasts voltarão com mais frequência. Mas a fotografia, como sempre, chega primeiro. E eu gosto que assim seja.

Fim do mundo

Na minha viagem de hoje, por entre uma zona costeira da região centro banhada pelo sol, ouvi com prazer esta reportagem da TSF sobre as rádios comunitárias da Guiné-Bissau. Devo dizer que me emocionei ao ouvi-la. E emocionou-me sobretudo a forma humilde e simples e ao mesmo tempo tão assertiva e voluntária como o nosso povo irmão da Guiné vive a comunidade, e o trabalho para o bem dessa mesma comunidade, defendendo com tenacidade o direito dos que não têm voz a terem a sua opinião, a exprimirem as suas vidas e as suas ideias, num serviço essencialmente comunitário para o bem de todos. Foi bonito ouvir o orgulho e o empenho com que os fundadores destas rádios, assim como aqueles que nelas trabalham, têm nas mesmas e no seu papel, muitas vezes contrariado pelas autoridades.

Partilho agora com todos vós esta reportagem. Vale muito a pena ouvir.