Um tempo…

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Crédito: Marcos Borga/Visão

Fui surpreendido este fim de semana pela notícia do falecimento de Diogo Freitas do Amaral. Falece um homem que sempre foi livre no seu pensamento, e na forma como baseado nele norteou a sua ação política, num caminho que não sendo único na realidade política portuguesa, foi com toda a certeza profundamente genuíno, e trilhado na evolução natural do seu pensamento político ao longo da vida, fiel apenas a si mesmo e ao serviço à sociedade, desde a fase turbulenta de implantação organizada da democracia cristã no período pós-1974 (com a criação do CDS), até ao desempenho de funções governativas num executivo socialista. Coisa rara na política portuguesa, marcada por uma certa lógica clubística…igualmente coisa rara, é a discussão de matérias e ideias de forma cordial, calma, reflexiva e assertiva, como o fazia Freitas do Amaral, e que nos faz muita falta.

Num mês que para mim foi de tempo sem tempo, sinto-me um pouco triste por voltar ao blog com esta inevitabilidade do tempo. Que descanse em paz.

O novo dia da Matilde

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Crédito: RTP

O dia 27 foi um novo dia para a Matilde. Não porque encontrou a sua cura, não porque miraculosamente a sua doença desapareceu, mas porque deu um passo em frente. Um passo sem destino definido, mas um simples passo em frente…talvez um dia, quando for maiorzinha, ela entenda que de facto o importante é mesmo o caminhar, o sentir que algo fica para trás porque, nesse processo, algo vai naturalmente despontando…por agora, tudo isto já está imerso no seu pequeno passinho, amparado pela vontade enorme de pais que nunca desistiram e não desistem de que a sua vida possa ser mais um conjunto de pequenos passinhos. É que nunca se sabe quando um passinho se pode tornar um grande passo.

Fui uma das pessoas que contribuiu para a conta da Matilde. Fui, e voltaria a fazê-lo. Se calhar deveria ter esperado para ver como o Estado reagia…ou talvez não. E por isso escolhi o não esperar…não vou cair na suprema hipocrisia de opinar sobre a aposta que os pais da menina fizeram, porque não sou eu que tenho uma filha com atrofia muscular espinhal, porque não sou eu que todos os dias via o tempo a passar numa enfermaria de cuidados intensivos…o que eu sei é que, apenas após o caso vir a público, e já com as doações muito próximas do objetivo, é que também veio a público que o Estado poderia comparticipar o Zolgensma…a televisão é realmente uma poderosíssima arma de movimentação de causas…mas antes disso, apenas vi algo a que não podia negar, porque realmente o tempo ia passando numa enfermaria de cuidados intensivos…E dei. E voltava a dar. Poderia ser errado? não me interessou na altura, e não é motivo de arrependimento no meu íntimo. O que me interessa, é que talvez tenhamos todos aprendido com a Matilde que pode haver ferramentas que, no futuro, noutras situações, podem ser acionadas, se ditas aos pais no momento certo e com a informação correta…e se demorar a resposta…bom, se demorar a resposta, tenho a certeza que a ajuda solidária não faltará.

Só uma última nota sobre a questão dos dinheiros…assistimos hoje durante a tarde a uma inqualificável deriva de teorias jurídicas sobre como as pessoas que doaram dinheiro o poderiam exigir de volta porque, pelo que ouvi, existiu uma substancial alteração dos pressupostos da ajuda…só gostava de dizer que não tenho qualquer intenção de pedir o dinheiro de volta…é que se realmente existiu uma substancial alteração dos pressupostos de ajuda, se calhar tal aconteceu porque existe uma muito forte probabilidade de o Estado não cumprir o seu papel, por entre cortes, ineficiência e falta de um acompanhamento próximo e atempado deste tipo de doenças, não apenas aos sujeitos das mesmas mas igualmente ao núcleo familiar…se os pais querem ajudar outras crianças com a mesma doença, estão no seu pleno direito de encaminhar parte desses fundos para outros meninos e meninas que necessitem. Eu faria a mesma coisa. Se o poderiam fazer de uma forma diferente, mais sustentada no know-how de algumas pessoas habituadas a lidar com estas situações? talvez…eu faria. Mas isso sou eu, que não tenho a pretensão de vir dizer que sei o que podem estar a passar e o que podem ter sentido nesta experiência…porque não sei…

 

Amazónia

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Crédito: Desconhecido. Solicito informação.

A Amazónia tem sido notícia nos últimos dias pelos piores motivos. A dimensão dos fogos que vão lavrando não têm par nesta década, e os protestos pela mesma dimensão fazem-se ouvir de uma forma global. Não esqueçamos, contudo, que antes deste despertar mediático, a floresta já ardia há duas semanas, sem qualquer ação de combate por parte do governo brasileiro, que nada mais é do que um suporte ideológico e de impunidade, não apenas para uma política clandestina de desmatamento deliberado do pulmão do planeta, mas igualmente de coação sobre ativistas e povos indígenas que lutam nas sombras de um surto populista do qual, estou certo, muitos brasileiros já se arrependeram de apoiar, quanto mais não seja pela reação tida à oferta de ajuda dos G7.

Nestas duas semanas, em que também, note-se, vai ardendo a tundra siberiana, com 5 milhões de hectares já perdidos entre as linhas do frenesim mediático, foi inevitável sentir o como a ditadura do agora nos difunde da nossa união ao planeta, impedindo-nos de viver o presente tal como deve ser vivido…com consciência do mesmo, deixando o pensamento vogar pelo mundo que nos acolhe e que ampara o nosso crescer, aprendendo. No meio desta saudável preocupação pela Amazónia, e por todos nós, não devemos esquecer que apesar da sua dimensão e importância, este pedacinho de terra onde Gaia um dia se sentou, contemplando-se no espelho das águas do Amazonas, é apenas uma parte de um sistema mais global que se encontra em profunda transformação por via das ações humanas dos últimos 150/200 anos, exigindo uma atenção mais glocal sobre como, no nosso pequeno espaço podemos intervir nesse sistema, por esse sistema, e como a consciencialização do que somos nesse todo, nos deve levar a atuar de uma forma mais quotidiana nosso pequeno espaço.

Um ponto, nada mais é do que o receio de ver uma linha. E esta, nada mais é do que o receio de nos lançarmos no espaço.

 

Come and go…

Crédito: Paulo Heleno

Uma das coisas que sempre adorei ver em Porto Covo é a forma como os grandes navios surgem e desaparecem no horizonte. Tudo se passa num infinito conjunto de momentos, em que a forma se vai materializando ou desvanecendo, como se o tempo fosse parando na medida em que a imagem se encaixa na mente e mergulha na alma. É um excelente foco meditativo, para quem gosta de meditação, deixar estes grandes barcos fluir de uma forma calma. É também origem de pensamentos díspares…de como tantas vezes devemos deixar certas pessoas, ações, momentos lentamente desaparecer da nossa vida no momento, e ao ritmo certos. E de como muitas pessoas, ações, momentos, vão surgindo na nossa vida, afigurando-se lentamente como preponderantes na mesma, também no ritmo certo.

Expectativas não nos levam a nenhum lado, e por isso já as abandonei há muito. Muito menos expectativas a concretizar no curto prazo, como que numa deriva conquistadora de vida, moda do momento, que nos vai transformando por vezes no ocaso de nós mesmos. Saber esperar, amar, deixar fluir, nada mais é do que o nosso estado fundamental de humanidade nestes tempos modernos e, principalmente, nos que se avizinham.

Omnia in micro – 15

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Crédito: Desconhecido. Solicito Informação.

Chegada aquele lugar, onde o vento se ilumina em sol e a areia se explana em mar, pousou a sua mochila e despiu-se. Enquanto as roupas caiam no silêncio da liberdade do momento, contemplou o azul à sua frente, que ali calmamente se explanava numa pequena enseada, como que enquadrando o seu corpo nu e pleno de vida numa qualquer tela de verão, inundada na luz de um qualquer tempo pausado naquele momento. Nele se deixou envolver como se o universo nela repousasse, boiando na contemplação do azul do céu. À sua volta nada existia, tudo se transformando em paz.