Omnia in micro – 15

aaron-burden-123584-unsplash_2
Crédito: Desconhecido. Solicito Informação.

Chegada aquele lugar, onde o vento se ilumina em sol e a areia se explana em mar, pousou a sua mochila e despiu-se. Enquanto as roupas caiam no silêncio da liberdade do momento, contemplou o azul à sua frente, que ali calmamente se explanava numa pequena enseada, como que enquadrando o seu corpo nu e pleno de vida numa qualquer tela de verão, inundada na luz de um qualquer tempo pausado naquele momento. Nele se deixou envolver como se o universo nela repousasse, boiando na contemplação do azul do céu. À sua volta nada existia, tudo se transformando em paz.

Grev.

26821633
Crédito: Notícias ao minuto

Com a greve dos motoristas de matérias perigosas a ter um epílogo, ou uma reconversão em outro tipo de greve (iremos ver para a semana), confesso que este é um assunto realmente…triste. Assistimos durante uma semana às movimentações de um triângulo verdadeiramente insano…por entre um sindicato que manifestamente (talvez por inexperiência) inverteu a forma de atuar, escalando imediatamente para a forma mais grave de greve e vendo-se na necessidade de ir recuando a sua posição com o tempo; uma associação patronal que se refugiou numa argumentação que basicamente é incompreensível em qualquer realidade que seja analisada, e que geriu os relacionamentos com os sindicatos do setor, fazendo-nos questionar do futuro dos acordos com eles já assinados; e um Governo que não apenas contribuiu até meio da semana para a gestão citada acima, como fez a sua própria gestão política através de uma desnecessária dramatização de toda a questão, por entre a limitação clara do direito à greve…por entre todos estes vértices o país assistiu a uma paupérrima mostra de maturidade social. Algo a que infelizmente vamos assistir mais vezes no futuro, na ótica da emergência de uma realidade sindical pós-centrais, com a qual ninguém parece saber lidar.

E foi isto, uma semanas de greve…

Variações

Tinha 10 anos quando o António Variações partiu (para ser exato, estava a dias de fazer 11). As memórias que tenho são algo difusas, de uma pessoa diferente…uma pessoa que tinha consigo uma capacidade inata de ver cor num país que era de facto ainda muito cinzento. Tudo o que ouvia dele fazia-me sentir que de facto a sua diferença era grande, contagiosa, chegando longe por entre os muitos preconceitos da sociedade portuguesa da altura, e bastou-me ouvir as canções para ter a certeza. Na altura não percebia algumas letras em todo o seu esplendor, cristalinas nessa diferença em cor que parecia irradiar dele…da a sua morte, lembro-me da dimensão que esta teve no nosso muito pequeno país da altura, e lembro-me que, no meu crescer, fui ouvindo o António com mais atenção, e ganhando uma profunda admiração por ele, e pelo seu trabalho musical que foi mais que imensamente inovador, foi um ato de coragem, de ser livre num país que ainda não percebia bem a liberdade recentemente conquistada…ainda hoje, Anjo da Guarda é uma das minhas canções preferidas, uma muito bonita expressão interior de fé, muito pessoal, e com muita cor.

Fiquei muito feliz por saber que vai estrear um filme sobre parte da sua vida. Acho que o  António Variações nunca recebeu a homenagem que devia ter recebido. Sim, é verdade, houve o trabalhos do Humanos, há alguns anos atrás…agora o filme…fica a faltar qualquer coisa, qualquer coisa que signifique que o país cresceu, tornou-se um pouco maior. Desejo que pelo menos o filme seja bastante visto, e que pessoas mais velhas e mais novas conheçam um pouco mais do grande Variações, e que nestes dias plenos de luz e calor, absorvam um pouco da cor que ele nos deixou.

“Tenho pena de morrer, mas não medo. Tudo o que acaba me deprime. Mais pelo fim do que pelo acto em si.” AV

Osgas

be2096416782a98f32fd71725248c746-783x450
Crédito: Spyjournal/Flickr

Nunca percebi o porquê de tanto medo das osgas, pelo menos da denominada osga-comum. Talvez por alguma visão popular baseada em algum tipo de confusão com outras espécies, as desgraçadas das osgas são sempre vítimas de um conjunto de epítetos muito pouco condizentes com a sua realidade. De serem venenosas, até provocarem lesões de pele, passando pela sua falta de beleza, existe todo um conjunto de ideias preconcebidas, um preconceito que sem dúvida se alimenta da repetição sistemática das mesmas sempre com um toque negativo.

Para ser franco, não conheço animal mais tranquilo. Aprendi a apreciar esse comportamento quando ia passar alguns dias de férias na serra algarvia, onde existiam muitas, encontradas nas situações mais díspares. Com mais ou menos movimento, elas  permaneciam na sua abstração, imperturbáveis, apenas fugindo mais vigorosamente quando na presença de atitudes mais enérgicas, e não interagindo de forma agressiva.  Por outro lado, as osgas são excelentes reguladores do ambiente onde se existem, contribuindo para a regulação de espécies, nomeadamente melgas, mosquitos, aranhas, escaravelhos, formigas (entre outras), contribuindo para um funcionamento mais normal do ecossistema. E quanto à beleza…bom…quase que me apetecia dizer que há pessoas que realmente não se podem queixar…

E posto isto, quase que me apetece dizer que se por acaso virem osgas estas férias, deixem o bicho em paz. Com toda a certeza não vos fez mal nenhum, e não gostarmos do seu aspeto não é razão para as perseguir. Abrindo a nossa mente, com toda a certeza podemos aprender algo com elas. Eu aprendi.

Haus am Horn I – Contexto

67594720_2496049553759435_7661003405770358784_o
Crédito: @bauhausmovement

Neste centésimo aniversário da Bauhaus, uma das suas primeiras criações tem assumido um particular destaque, a hoje famosa Haus am Horn. É um marco que merece ser destacado, principalmente quando se analisa o período Weimar da escola, por ter sido  o foco da primeira apresentação pública do trabalho lá realizado.Mas vamos ao inicio.

Embora em atividade desde 1919, foi em 1922 que a Bauhaus teve oportunidade de publicamente mostrar o seu trabalho, por via das condições inerentes à  obtenção de um subsídio proveniente do governo de Weimar, que estabelecia a obrigatoriedade da realização de uma exposição pública das atividades da escola. Vivia-se ainda o cenário decorrente do final da Primeira Guerra Mundial, com a economia alemã pressionada pela fraca capacidade de geração de riqueza, e pelo ressarcir de indemnizações de guerra às potências vencedoras. Era um ambiente restritivo, que fazia com que a sociedade alemã visse de forma longínqua os anos de enorme abertura social e cultural que antecederam a guerra, fazendo da Alemanha  um dos estados mais progressistas da Europa em termos das ideias, da arte, e mesmo da interação desta com a indústria. As dificuldades económicas criavam uma atmosfera propícia à dúvida e ao ceticismo em relação a projetos como a Bauhaus, que se afirmava decididamente como progressista (e sempre modernista), a que se associava o facto de a nomeação de Walter Gropius como diretor deste novo projeto não ter merecido um entusiasmo claro no Governo, ao contrário do que aconteceu com alunos e professores.

A atribuição deste subsídio, com a exigência referida acima, foram abordados de forma decidida por Gropius e por todo o grupo da Bauhaus, com algumas medidas especiais a serem implementadas, como a extensão das horas dedicadas aos workshops ou a interrupção da admissão de alunos no verão de 1923. No campo da idealização da forma desta exposição, no meio das várias ideias apresentadas, uma sobressaiu, proveniente do Conselho dos Mestres: a criação e construção de uma casa completa, na sua edificação exterior e composição interior, como principal atração e foco da exposição e dos princípios orientadores da escola, em sinergia com a nova realidade económica do pós-guerra. Com efeito, as dificuldades económicas e a escassez de recursos materiais e energéticos pareciam abrir um caminho para os princípios inerentes á economia e eficiência da construção, ou da produção em fábrica, algo que estava inerente à génese do pensamento da escola, e ao pensamento mais estruturado de Gropius, retomando e levando mais além o conceito das Werkbunds, anteriores à guerra.

A escolha da ideia a ser explorada foi realizada num concurso interno, com uma votação final para a decisão. Várias surgiram, incluindo uma do próprio Walter Gropius, mas foi o desenho de George Muche, o mais jovem mestre da Bauhaus, ministrando as disciplinas de pintura e tecelagem, que venceu o concurso, com um desenho que curiosamente nada mais era do que a idealização de uma casa destinada a si e à sua família. Nascia assim a primeira versão da Haus am Horn, cujas linhas e planeamento foram sendo refinados até ao início da construção em abril de 1923, supervisionada pelo gabinete de Gropius, através de Adolf Mayer. Contudo, este período que mediou entre a escolha da ideia e o início da construção (e mesmo durante a mesma) foi caracterizado por profundas dificuldades nos financiamentos, afetados pela realidade inflacionista na República de Weimar (e que iria ter como consequência, juntamente com a crise de Wall Street em 1929, a ascensão do partido nazi ao poder). Os donativos rapidamente perdiam valor, e apenas concedendo a posse posterior da casa ao industrial de Berlim Adolf Sommerfeld, em troca de um financiamento contínuo, foi possível levantar a obra. Por outro lado, muitas empresas, nomeadamente as de cariz mais inovador, trabalharam no projeto numa perspetiva de obtenção de lucros futuros pela associação ao mesmo, enquanto que outras o fizeram a preços de custo.

A casa ficou pronta para a exposição do trabalho da Bauhaus, em Setembro de 1923, tendo sido uma das suas principais atrações. No próximo artigo, iremos analisar a casa em algum pormenor, desde a localização escolhida (um terreno onde eram colhidos os legumes e as frutas para a cantina da escola), linhas exteriores e construção.