Domingos

domingosp
Crédito: RTP

Uma das notícias que recebi neste tempo de interregno, e recebi com consternação, foi a do falecimento do Domingos Piedade. Para quem ainda se lembra das transmissões de Fórmula 1 na RTP aos domingos pelo almoço (e eu lembro-me delas desde 1982), assim como das transmissões de fórmulas no Autódromo do Estoril, que duravam toda a manhã desses dias, é um nome incontornável. Lembro-me dos comentários com José Pinto, Hélder de Sousa e Adriano Cerqueira, mas o “senhor Fórmula 1” era sempre “o senhor Fórmula 1”. Fruto de estar muito por dentro do desporto automóvel (foi chefe de equipe da Porsche em Le Mans, vice-presidente da Mercedes-AMG, e empresário de pilotos como Emerson Fittipaldi e Nélson Piquet), Domingos fazia até os pormenores mais técnicos parecerem uma coisa relativamente simples, sempre relatada de uma forma dinâmica, jovial e muito bem humorada, assim como eram as imensas histórias com que nos deliciava nas transmissões. E transmissão de corrida que não tivesse o Domingos Piedade pelo menos ao telefone (e que deliciosamente longas eram essas chamadas telefónicas) a dialogar com os comentadores em estúdio, nem era transmissão de corrida 🙂

Dos cerca de 35 anos em que vi regularmente F1, sempre de forma apaixonada, muito do conhecimento que fui obtendo e da paixão que sempre existia, foram muito trazidos pelo Domingos Piedade, e por isso lhe sou grato.

Descansa em paz, Domingos.

Parar…respirar…

sunrise
Crédito: Desconhecido. Solicito informação.

O último mês e meio tem sido de uma intensidade fora do normal em termos profissionais. Não é que não tenha tido vontade de vir aqui continuar esta partilha que faço com todos vocês, mas sinceramente, era tanto por vezes o cansaço ao final do dia que não sentia forças nem para escrever. A acrescentar a isto, a oportunidade de evoluir profissionalmente, em termos de carreira, no sentido do que tem sido a planificação da mesma, tem colocado uma camada de esforço em cima do trabalho regular…na vida, e também na nossa vivência profissional, é a busca de um propósito e de felicidade, em todas as suas vertentes, que nos move.

Entretanto, felizmente o ritmo vai começando a abrandar, também com a aproximação da época das festas. E felizmente também vou ganhando tempo para retornar aos posts e aos podcasts. E devo-vos dizer que isso me faz profundamente feliz, à medida que se vai aproximando a caminhada de 2020, que promete muito.

Dias de cansaço

20190528150548_4f24daf8d6558455b71de8bb3aa10e0aab981316113597a56feb7cd3bab0ec7f
Crédito: Brasil247

Estas têm sido semanas de trabalho intenso, onde nos poucos momentos de descanso (incluindo um sono atribulado), tenho caminhado entre o cansaço e a exaustão. Pelo meio, especialmente nas duas últimas semanas, uma dor bastante forte num implante dentário que coloquei em substituição de outro…infelizmente a minha agenda não me permite ver esta questão como deve ser nas próximas duas semanas, e vou fazendo antibiótico e anti-inflamatório…mas as dores perturbam-me, principalmente no meu descanso, que se vai resumindo durante a semana a uns passeios muito agradáveis em Aveiro, depois do jantar, e a ler Pessoa e Tolentino Mendonça, por entre as minhas indispensáveis listas de músicas. Tem-me agradado muito a erupção interior que os dois livros (o Livro do Desassossego e o Elogio da Sede) provocam…cada um à sua maneira, por entre tempestades e fortes brisas marítimas, são livros impermanentes que nos movem para a frente no fino equilíbrio da natureza humana. E claro, as minhas ações de voluntariado, que têm contribuído na essência da partilha para a minha sanidade.

No fim de semana, entrego-me ao silêncio (na maior parte dele). Já sabe bem o som da chuva lá fora a ecoar perante um golo de chá quente e uma manta bastante confortável…ocasionalmente vou-me colocando a par das novidades, e muito haverá para escrever assim que o tempo permita, assim como para gravar o próximo episódio do Podcast, sobre voluntariado…também ocasionalmente vou reencontrando Amigos de outrora que no futuro sempre se perfilam, em encontros muito agradáveis.

Mas, por agora, é altura de descansar, aproveitando esta benção em forma de fim de semana prolongado.

Um tempo…

mw-1920
Crédito: Marcos Borga/Visão

Fui surpreendido este fim de semana pela notícia do falecimento de Diogo Freitas do Amaral. Falece um homem que sempre foi livre no seu pensamento, e na forma como baseado nele norteou a sua ação política, num caminho que não sendo único na realidade política portuguesa, foi com toda a certeza profundamente genuíno, e trilhado na evolução natural do seu pensamento político ao longo da vida, fiel apenas a si mesmo e ao serviço à sociedade, desde a fase turbulenta de implantação organizada da democracia cristã no período pós-1974 (com a criação do CDS), até ao desempenho de funções governativas num executivo socialista. Coisa rara na política portuguesa, marcada por uma certa lógica clubística…igualmente coisa rara, é a discussão de matérias e ideias de forma cordial, calma, reflexiva e assertiva, como o fazia Freitas do Amaral, e que nos faz muita falta.

Num mês que para mim foi de tempo sem tempo, sinto-me um pouco triste por voltar ao blog com esta inevitabilidade do tempo. Que descanse em paz.

O novo dia da Matilde

137c982c8476e732664ca5db9530eb6d
Crédito: RTP

O dia 27 foi um novo dia para a Matilde. Não porque encontrou a sua cura, não porque miraculosamente a sua doença desapareceu, mas porque deu um passo em frente. Um passo sem destino definido, mas um simples passo em frente…talvez um dia, quando for maiorzinha, ela entenda que de facto o importante é mesmo o caminhar, o sentir que algo fica para trás porque, nesse processo, algo vai naturalmente despontando…por agora, tudo isto já está imerso no seu pequeno passinho, amparado pela vontade enorme de pais que nunca desistiram e não desistem de que a sua vida possa ser mais um conjunto de pequenos passinhos. É que nunca se sabe quando um passinho se pode tornar um grande passo.

Fui uma das pessoas que contribuiu para a conta da Matilde. Fui, e voltaria a fazê-lo. Se calhar deveria ter esperado para ver como o Estado reagia…ou talvez não. E por isso escolhi o não esperar…não vou cair na suprema hipocrisia de opinar sobre a aposta que os pais da menina fizeram, porque não sou eu que tenho uma filha com atrofia muscular espinhal, porque não sou eu que todos os dias via o tempo a passar numa enfermaria de cuidados intensivos…o que eu sei é que, apenas após o caso vir a público, e já com as doações muito próximas do objetivo, é que também veio a público que o Estado poderia comparticipar o Zolgensma…a televisão é realmente uma poderosíssima arma de movimentação de causas…mas antes disso, apenas vi algo a que não podia negar, porque realmente o tempo ia passando numa enfermaria de cuidados intensivos…E dei. E voltava a dar. Poderia ser errado? não me interessou na altura, e não é motivo de arrependimento no meu íntimo. O que me interessa, é que talvez tenhamos todos aprendido com a Matilde que pode haver ferramentas que, no futuro, noutras situações, podem ser acionadas, se ditas aos pais no momento certo e com a informação correta…e se demorar a resposta…bom, se demorar a resposta, tenho a certeza que a ajuda solidária não faltará.

Só uma última nota sobre a questão dos dinheiros…assistimos hoje durante a tarde a uma inqualificável deriva de teorias jurídicas sobre como as pessoas que doaram dinheiro o poderiam exigir de volta porque, pelo que ouvi, existiu uma substancial alteração dos pressupostos da ajuda…só gostava de dizer que não tenho qualquer intenção de pedir o dinheiro de volta…é que se realmente existiu uma substancial alteração dos pressupostos de ajuda, se calhar tal aconteceu porque existe uma muito forte probabilidade de o Estado não cumprir o seu papel, por entre cortes, ineficiência e falta de um acompanhamento próximo e atempado deste tipo de doenças, não apenas aos sujeitos das mesmas mas igualmente ao núcleo familiar…se os pais querem ajudar outras crianças com a mesma doença, estão no seu pleno direito de encaminhar parte desses fundos para outros meninos e meninas que necessitem. Eu faria a mesma coisa. Se o poderiam fazer de uma forma diferente, mais sustentada no know-how de algumas pessoas habituadas a lidar com estas situações? talvez…eu faria. Mas isso sou eu, que não tenho a pretensão de vir dizer que sei o que podem estar a passar e o que podem ter sentido nesta experiência…porque não sei…