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Iker II

Quando estive nos Pirinéus, há cerca de 3 anos, enfrentei a minha primeira tempestade de montanha. No grupo onde estava, sabíamos que ela poderia surgir durante a etapa, e, de facto, ela apareceu, sem qualquer aviso. Imediatamente começámos a correr, com o elemento mais experiente do grupo à frente, enquanto eu só olhava para o chão, tentando não cair. Após algum tempo, conseguimos um refúgio num pequeno abrigo natural, uma pequena cavidade onde mal cabíamos todos. De lá, observei uma trovoada tão intensa e maravilhosa quanto a tempestade que a envolvia, num espetáculo que durou pelo menos uma hora. Durante esses momentos, um dos elementos mais experientes do grupo perguntou-me muito curioso porque tinha baixado a cabeça, enquanto corria. Respondi que nem via por onde ia, só queria não cair e com todo o peso da mochila atrás, ao que ele me respondeu algo que nunca mais esqueci…”não o deves fazer…a montanha que te envolve na tempestade é a montanha que te oferece o abrigo…se não a olhares nos olhos, não o encontras.”

Passada essa hora, voltámos ao caminho, rumo ao refúgio dos Florestales (na imagem). Enquanto íamos caminhando, a neblina ia-nos perseguindo. Literalmente. Olhávamos para trás e via-se claramente uma massa nebulosa caminhando veloz no nosso encalço, percorrendo o chão e envolvendo o ar, tornando a visibilidade cada vez menor por onde passava. Chegámos ao refúgio não mais de 10 minutos antes de todo aquele local ser envolvido por toda essa neblina. E na simplicidade dessa estrutura, despida de qualquer artificialidade desnecessária (assim como o nosso pequeno abrigo anterior) esperámos, pacientes, por uma melhoria das condições atmosféricas (mais cerca de uma hora), antes de voltarmos ao trilho para uma das mais belas etapas daquele dia.

E tem sido assim que tenho caminhado perante as interrogações do artigo anterior. Quem já lá esteve sabe que a montanha nunca nos abandona.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

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Iker

Ao ouvir a notícia de hoje relativa ao enfarte de Iker Casillas, não pude deixar de ter logo, como primeiro pensamento, uma das últimas consultas médicas que tive…depois de descrever o meu trabalho, o médico pausou um pouco, dizendo-me que parecia um pouco cansado. “Ajudava ter um hobbie” disse ele, levando-me a pensar qual das n coisas que amo fazer e que há muito tempo não faço, devia escolher. Talvez tenha sido um pensamento egoísta…obviamente que desejo que tudo não tenha passado de um susto, e que Iker continue a maravilhar os adeptos de futebol com a sua arte. Mas foi o meu primeiro pensamento…para ser franco, desde o que aconteceu ao João Vasconcelos que tenho pensado nestas situações, despertando-me toda uma reflexão estruturante  sobre o meu quotidiano. Sempre senti dentro de mim que 2019 ia ser um ano de evolução, tal como foi o ano de 2016, com todos os seus acontecimentos que guardo com carinho. E os caminhos que tenho trilhado nesta questão, iluminam novos caminhos que vão surgindo, na enorme paisagem aberta há cerca de 3 anos.

É assustador o ritmo a que estas situações vão acontecendo.

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Ericeira revival

Ribeira D’Ilhas é um local especial para mim. É daqui que parte, e é aqui que termina, o trail da Ericeira, que fazia todos os anos. Era a última prova do ano (realizada em Dezembro), onde a esmagadora maioria do pelotão do TCC se encontrava para um convívio saudável em prova, conjuntamente com todos os outros participantes que acorriam ao evento. A prova era sempre realizada em Dezembro, e normalmente chegava à praia ainda de madrugada, onde me esperava um vento muito frio, de que gostava particularmente.  E, como prova, não era difícil…rolante, agradável no cruzar de uma paisagem de cores muito bem definidas pelo frio de inverno que se exprimia em dias claros e luminosos, e com uma parte final muito bonita por toda a costa da zona da Ericeira, culminando na escadaria final e na meta, instalada no surf restaurant que lá existe.

Hoje voltei lá, e senti alguma nostalgia…foi o segundo trail que fiz fora de Leiria, depois da experiência de Sintra, e foi o primeiro trail onde vivi de uma forma mais individual (nessa edição), a solidariedade e o calor humano dessas provas, ao ajudar um companheiro, com cãibras em ambas as pernas…durante o tempo que corri (cerca de 5 anos), ajudei alguns companheiros, e alguns companheiros me ajudaram, com algumas situações de ambos os casos a marcarem-me do ponto de vista humano, e que ainda hoje recordo com uma não disfarçada emoção…não sou pessoa de esconder as lágrimas…não faz sentido esconder o que faz parte de nós, e o que de nós diz tanto…

Não me arrependi nunca de deixar de correr. A harmonia que vivi com a montanha, nos Pirenéus, foi de uma amplitude tal, que o Trail Running deixou de fazer sentido na minha vida…a montanha ainda hoje reside em mim numa essência muito diferente, na paz mais ampla que essa harmonia me faz sentir…a ela desejo voltar (vamos ver se será este ano). Mas não esqueço os bons momentos que vivi no trail, especialmente quando assumi o corte com as provas leirienses, e fui em busca de pessoas, experiências e lugares diferentes, que me ensinassem algo mais fora das rotinas instaladas…todos encontrei, e com todos cresci um pouco mais enquanto homem.

E por isso hoje, juntamente com a nostalgia que era embalada por um belíssimo dia de sol, senti igualmente uma profunda gratidão.

Crédito da imagem: Paulo Heleno

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Travelling with Miles

Sempre que viajo, gosto de ouvir Miles. O contacto com cenários novos, ou que apenas visito de vez em quando, convida-me a ouvir música, pois com ela consigo-os viver de uma forma mais interior, reverberando em mim de diversas formas. Mais calmos e rurais, ou mais intensos e urbanos, a música ajuda-me a interiorizar a energia do que vejo, relativizando o tempo enquanto me desloco por esses locais.

O som de Miles é extraordinariamente ambiental. Nos seus ritmos mais enérgicos consigo sentir, por exemplo, o pulsar do ritmo de um aeroporto, enquanto que nos seus ritmos mais lentos, consigo transportar para o meu interior o sentir de um avião a sobrevoar o mar, o que nos dá a sensação de estarmos virtualmente parados no ar. Gosto de o considerar como um som verdadeiramente orgânico, que se desloca connosco, e que parece ter as suas raízes nas suas próprias vivências enquanto homem, desde as lutas dos direitos cívicos, onde o seu pai teve um papel importante, e onde Miles absorveu a atmosfera de uns EUA em mudança abrupta que também o atingiu (perdeu vários concursos musicais na sua juventude para colegas brancos); até à contemplação em si mesmo da sua personalidade, da sua própria sensibilidade, procurando algumas vezes a paz por entre a tempestade.

Talvez por isso, e pela forma como evoluiu dentro desse contexto de época, indo sempre mais longe na exploração do seu inigualável talento, o seu som seja tão real em termos da ilustração do que observamos em nosso redor. Se é verdade que os tempos mudam, também é certo que eles podem ser captados em toda a sua essência através da arte, tornando-se intemporais na medida da sua própria intensidade intrínseca, e da profundidade com que esses momentos são vividos e sentidos, colocando-nos perante a contemplação intemporal da nossa própria humanidade.

Crédito da imagem: Desconhecido. Solicito informação do autor.

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A luz do voltar

Esta semana já a passei por completo em Portugal. É o início de um período em que tenciono passar mais tempo por terras lusas, e que se deverá estender até ao final do verão. Mas se a semana foi ainda de trabalho intenso, ao ritmo e à pressão inglesas, nos fins de semana consigo fechar os olhos e respirar um pouco do meu viver…tenho aproveitado para sair de Leiria, passear, conduzir, sentir sítios com uma harmonia especial, pela forma como a sua energia me preenche…talvez relacionado com isso, tenho instintivamente voltado um pouco à fotografia, nomeadamente através do Instagram (pode ter muitos defeitos mas é uma ferramenta muito prática). Os resultados podem ser vistos por lá, mas, para ser franco, começo a sentir um desejo de pegar nas minhas “meninas”, não apenas na digital, mas também nas minhas duas analógicas.

Sempre disse que existe uma espécie de “estar fotográfico” ou de “sentir fotográfico”…o tempo passa mais lento, e o olhar torna-se mais fundo, como que me segredando na alma aquilo que vejo, num ambiente de silêncio em mim que me acalma o caminhar…as fotografias surgem naturalmente ainda antes de erguer a máquina, e para ser franco, não me preocupo com regras, porque simplesmente não me interessa seguir regras na fotografia…são apenas uma perda de tempo e de desfocar a essência do meu sentir, para além de que são, acima de tudo, expressões formais de relações de sentir naturais com o meio, na expressão da beleza ou do desagrado com que um cenário ou mesmo uma pessoa se afigura perante nós, seja numa expressão física, de como o nosso cérebro reage a certo tipo de padrões, seja mesmo num plano mais profundo, mental e espiritual…fotografar tem muito mais a ver com sentir do que com pensar.

Também por isso, fotografar nestes dias, ainda que com o Instagram, tem sido basicamente uma catarse, uma libertação intensa das regras da semana, e que se junta ao sentimento de que este ano de 2019 será um ano de transição. Estando mais por cá, também a escrita e os podcasts voltarão com mais frequência. Mas a fotografia, como sempre, chega primeiro. E eu gosto que assim seja.